Carl Sagan defendia controle de natalidade e apartheid tecnológico para o Terceiro Mundo, e usava ciência para justificar aborto e infanticídio.
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No artigo anterior, comentei aspectos gerais do testamento político do maior divulgador científico do século XX: Carl Sagan (1934 – 1996). Mostrei que a sua cosmovisão epicurista leva-o a representar a vida na terra como decorrente de um concurso de causas extremamente efêmero que deve ser mantido pela humanidade de maneira artificial, para que nossa espécie não se extinga. Essa manutenção exige um pacto global regido por cientistas. Cientistas são seres especiais porque são, supostamente, os únicos que se empenham em antever catástrofes. A humanidade é artificialmente dividida por Sagan entre os ateus iluministas adeptos da ciência e os religiosos obscurantistas que rejeitam a ciência. Para que a espécie sobreviva, portanto, é preciso que os primeiros prevaleçam sobre os segundos.
No seu testamento político, Bilhões e bilhões (1997), as causas privilegiadas são o ambientalismo e o aborto. Hoje quero mostrar que essas duas causas são, na verdade, uma só: a do neomalthusianismo.
É fácil provar que Carl Sagan era um neomalthusiano. Eis o que ele diz no capítulo “O tabuleiro de xadrez persa”: “As exponenciais também constituem a ideia central por trás da crise da população mundial. […] Como o clérigo inglês apontou em 1798, uma população que cresce exponencialmente – Malthus a descreveu como uma progressão geométrica – vai superar qualquer aumento concebível de alimentos. Nenhuma Revolução Verde, nenhum cultivo de plantas fora do solo, nenhum método que faça os desertos florescerem, nada disso poderá dar conta de um crescimento populacional exponencial. Não há tampouco solução extraterrestre para esse problema. […] Mesmo que fosse possível enviar todo o mundo sobre a Terra para planetas distantes em naves que viajassem a uma velocidade maior que a da luz, quase nada mudaria – todos os planetas habitáveis na galáxia da Via Láctea estariam lotados em aproximadamente um milênio.”
Nenhuma ressalva sobre o erro da profecia de Malthus, nem considerações sobre a desumanidade de suas recomendações. Malthus passa por herói científico. E, com dogmatismo surpreendente, Sagan descarta sem argumentação que as melhorias tecnológicas possam resolver o problema da alimentação. Veja bem: Sagan dá por garantido que até em planetas diferentes os homens continuariam a procriar de maneira exponencial, quando nem mesmo a taxa de fecundidade é historicamente igual no campo e na classe média urbana! E mil anos é um prazo curto demais para a humanidade, com tanto desenvolvimento, resolver um problema!
Em vez de propor abertamente que os pobres fiquem sem caridade, como o velho Malthus, Sagan propõe controle de natalidade e Apartheid tecnológico. Em vez de ajudar os pobres, portanto, temos de impedir que eles nasçam e privá-los de tecnologia – exceto a tecnologia do controle de natalidade, que, ao que parece, está de todo imune a causar danos ambientais imprevisíveis. Além disso, enquanto o velho Malthus tinha em vista os pobres da Inglaterra, Sagan amplia as vistas para as nações pobres do mundo, que não paravam de aumentar e de usar tecnologia, coisa que supostamente causa grande dano ambiental.
Se ele dissesse essas coisas de maneira explícita, seria um evidente vilão. Assim, a questão do controle de natalidade é, no mesmo capítulo, embrulhada pelo humanitarismo e pelo feminismo: “Há uma correlação documentada em todo o mundo entre a pobreza e as altas taxas de natalidade. Em países pequenos e grandes […] o crescimento exponencial da população diminui ou cessa quando desaparece a pobreza esmagadora. A isso se dá o nome de transição demográfica. A longo prazo, é do maior interesse da espécie humana que todo lugar na Terra atinja essa transição demográfica. […] Uma das questões centrais na crise da população mundial é a pobreza.”
Correlação não implica causalidade, mas Sagan argumenta como se implicasse. As pessoas não são pobres porque têm filhos, mas têm filhos porque o custo para criá-los é baixo e compensado pelo uso da mão de obra: num local atrasado, tudo o que os lavradores precisam dar aos seus filhos é comida, que a terra dá; e o filho em poucos anos passa a ajudar a família no trabalho. Um casal estéril não ficaria rico pela ausência de filhos. Ele economizaria uma comida que poderia muito bem apodrecer e não multiplicaria a sua força de trabalho. Se as coisas fossem como Sagan diz, a esterilidade seria uma bênção em sociedades agrárias, mas a realidade mostra o oposto.
Continuando: “As exceções à transição demográfica são interessantes. Algumas nações [que ele não cita] com altas rendas per capita ainda têm altas taxas de natalidade. Mas nelas não existem anticoncepcionais à disposição e/ou as mulheres não têm poder político efetivo. Não é difícil compreender a conexão.” Em momento nenhum do livro ele explica o que é necessário para dizer que as mulheres têm poder político real numa sociedade. Isso é lamentável, porque ele afirma que as mulheres o tinham no pleistoceno (!!) e não têm hoje. Assim, dado que Sagan não apresenta a fonte das informações, só podemos entender que ele está criando uma série de pretextos para instar à contracepção, a depender da realidade com a qual o leitor se defronte: se as mulheres têm boas condições materiais, mas ainda assim não pararam de parir, não podemos deixá-las em paz; isso é um sintoma de falta de poder político, coisa que as mulheres tinham na pré-história fazendo ciranda numa noite de lua cheia sob efeito de substâncias alucinógenas.
Em “O meio ambiente: onde reside a prudência?”, depois de tratar das consequências inesperadas do CFC, lastima: “As proibições impostas ao uso irresponsável da tecnologia são fracas, frequentemente tíbias, e quase sempre, em todo o mundo, subordinadas ao interesse nacional ou corporativo de curto prazo. Somos agora capazes de, intencional ou inadvertidamente, alterar o meio ambiente global. […] Talvez os produtos da ciência sejam simplesmente poderosos demais, perigosos demais para nós. Talvez ainda não estivéssemos suficientemente crescidos para recebê-los. Seria prudente dar um revólver de presente a um bebê de berço?” Após comparar a arma à ciência, acrescenta “mais uma complicação: vamos imaginar que, ao se puxar o gatilho de uma pistola, décadas se passem antes que a vítima ou o agressor reconheça que alguém foi atingido.”
Toda a implicação é que a refrigeração por CFC – inclusive a de alimentos – não deveria ter sido posta ao alcance da população mundial, mesmo que aumente muito a qualidade de vida humana. Trata-se de uma tecnologia essencialmente pacífica. Agora, logo adiante ele defende mais uma vez o controle de natalidade, como se milhões de comprimidos com hormônios artificiais fossem, com absoluta certeza, incapazes de causar dano ambiental no longo prazo. O que Sagan propõe tacitamente tem nome: apartheid tecnológico.
Vejam como ele se preocupa não só com a multiplicação do terceiro mundo, mas também com o seu acesso à tecnologia, no capítulo “Fuga da emboscada”: “O maior emissor de CO2 no planeta são os Estados Unidos. O segundo maior emissor de CO2 é a Rússia e as outras repúblicas da antiga União Soviética. O terceiro maior emissor, se os considerarmos em conjunto, são todos os países em desenvolvimento. Esse é um fato muito importante: não é apenas um problema para as nações altamente tecnológicas – por meio da agricultura das queimadas, do uso da lenha, e assim por diante, os países em desenvolvimento também estão dando uma contribuição importante para o aquecimento global. E os países em desenvolvimento têm a maior taxa de crescimento populacional no mundo. Mesmo que não consigam atingir o padrão de vida […] do Ocidente, essas nações vão constituir uma parte cada vez maior do problema.”
O terceiro mundo está errado se não usa muita tecnologia e está errado se planta comida. Um país sozinho, os EUA, lidera o problema a ser combatido, mas o terceiro mundo tomado em conjunto é que tem que ser controlado por meio da queda da natalidade. Por que não reduzir o consumismo dos Estados Unidos, em vez de obrigar os chineses e indianos a terem menos filhos? Sagan não responde, nem trata em momento algum da questão do consumismo, que deveria ser abordada por qualquer ambientalista sério.
O caminho apontado por Sagan para evitar o aquecimento global causado pelo CO2 é abandonar gradualmente o uso de combustíveis fósseis e… Viver de painel solar e energia eólica, porque Chernobyl “provou” que energia nuclear não é segura, e porque a tecnologia pode ser convertida para a produção de armas. Tudo se passa como se a produção de painéis solares não causasse nenhum dano ambiental, e como se os tais painéis fossem eternos, sem jamais se transformar em lixo. O impacto das usinas de energia eólica sobre as aves tampouco é cogitado. Tudo se passa como se o sol e o vento gerassem energia sem custos ambientais para o homem que quisesse aproveitá-la. Em 1996, Sagan já era um entusiasta dos carros elétricos e antecipava que eles deveriam ser preferidos não por causa da potência do motor ou da velocidade que alcança – que ele supunha serem menores do que as do carro a gasolina –, mas para salvar a espécie.
Então o homem deve gerar menos energia e deve, sobretudo no terceiro mundo, reproduzir-se menos, que assim ficará magicamente mais rico, mas tampouco deve ter acesso a tecnologia, exceto placa solar, moinho de vento e anticoncepcionais, que não causam dano nenhum ao meio ambiente. Será muito ousado supor que a campanha pelo abandono da energia confiável em prol de fontes intermitentes como solar e eólica se deve justamente ao fato de serem intermitentes, de modo que o acesso à tecnologia fique comprometido e a mortalidade aumente? Tudo para salvar a espécie humana.
Esse assunto leva, naturalmente, ao método mais drástico de controle de natalidade: o aborto. Nos Estados Unidos, a questão era apresentada, desde Roe v. Wade (1973), em termos de “pró-escolha” e “pró-vida”, com as posições num espectro: o extremo pró-escolha defendia o aborto eletivo até momentos antes do nascimento; o extremo pró-vida, defendia a criminalização do aborto em qualquer caso. Com Roe v. Wade, a Suprema Corte obrigou as unidades federativas dos Estados Unidos a liberarem o aborto antes da “viabilidade fetal”, ou seja, antes de o feto ser capaz de sobreviver fora do corpo da mãe.
Em “Aborto: é possível ser ‘pró-vida’ e ‘pró-escolha’?”, publicado pela primeira vez em 1990, Sagan fez uma defesa “científica” de Roe v. Wade. Segundo o Guallup, o ano de 1996 foi justamente aquele em que a posição pró-escolha extrema caiu. Sagan inicia sua argumentação afirmando que “um bebê recém-nascido é certamente o mesmo ser que era pouco antes do nascimento”. No entanto, ao longo do texto ele promove uma literal desumanização dos embriões e fetos, pois para ele o que importa é saber se o ser é diferente de um animal irracional. Para Sagan, o fato de os pulmões estarem prontos ou de o coração bater não justifica a interdição ao aborto, porque nós matamos animais com essas características e isso não caracteriza assassinato. Assim, o ponto em que o bebê é considerado humano é precisamente aquele em que ele adquire a característica específica dos humanos: o pensamento. E ele acha que o pensamento provavelmente surge no terceiro trimestre da gravidez, de modo que Roe v. Wade está bom.
Mesmo assim, o fato é que, ao menos na prática, a decisão permitiu o aborto às vésperas do parto, pois o Alasca é assim até hoje, mesmo após a reversão da decisão. Sobre isto, Sagan diz, sem citar fontes, que “enquanto questão prática, isso não é muito importante: menos de 1% de todos os abortos tabulados nos Estados Unidos estão listados nos últimos três meses de gestação (e, sob investigação mais minuciosa, a maioria desses casos se revela como abortos espontâneos ou cálculos errados).” Será que essa reversão na tendência extremista foi de interesse da agenda abortista, a fim de evitar reação?
Ora, no mesmo parágrafo em que ele afirma essa frase tranquilizadora para o leitor médio dos EUA, ele afirma também que “talvez haja pensamento no ventre materno. É difícil sustentar que a transformação numa pessoa completa aconteça abruptamente no momento do pensamento”. Talvez não haja pensamento no ventre materno – e talvez os bebês recém-nascidos não pensem, nem sejam pessoas completas. É basicamente esse o raciocínio de Peter Singer para defender o infanticídio. Sagan defende o senso comum dos EUA com um argumento muito ruim, que deixa as portas abertas para institucionalizar o infanticídio, caso os cientistas apresentem “provas” de que bebês não pensam, ou pensam menos do que um cão adulto.
Vamos à desumanização. Com desenhos em quadrinhos dos estágios da gravidez, lemos que com três semanas o embrião humano “se parece um pouco com um verme segmentado”; na quinta semana, “a face, vista aqui de perfil, tem nitidamente o aspecto de um réptil”; na sétima, “a face é de mamífero, e bastante parecida com a de um porco”; na oitava, “a face se parece com a de um primata, mas ainda não é totalmente humana”. Será possível que tudo isso seja mesmo a opinião sincera de um cientista sério?
Bom, boa parte dos sofismas de Sagan se deve à confusão entre humano como substantivo e como adjetivo. Células humanas são humanas, mas não são indivíduos humanos, pessoas humanas. As células HeLa (que abreviam Henrietta Lacks e não Helen Lane, como está no livro) são células humanas, mas não são uma pessoa. O adjetivo “humano” se aplica até a fezes.
A pergunta não deveria ser se um embrião humano é humano, mas se um embrião humano é uma pessoa. Se um embrião é um ser vivo, como negar que a vida de uma pessoa começa com a sua formação, isto é, concepção?
Sagan sabia disso. No seu derradeiro texto, feito já à beira da morte, ele se lastima de não poder “conhecer os netos ainda não concebidos”. Os netos dele nunca seriam vermes, répteis nem porcos.

