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Bruna Frascolla
October 28, 2026
© WA

Lula vence com ajuda do STF e promete transferência de renda. Flávio contesta, Senado bolsonarista pode fazer impeachment. Convulsão social à vista.

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Escreva para nós: @worldanalyticspress_bot

Em 2002, Lula ganhou pela primeira vez a eleição com o slogan “A esperança venceu o medo”. Seus adversários alegavam que Lula seria uma espécie de Che Guevara no poder e faria os investimentos correrem – nada mais distante da realidade, pois o presidente é amado pelos banqueiros. De todo modo, não há contraste maior do que aquele entre a primeira e a última vitória de Lula. Nesta, as magras e pouco convincentes propostas de Lula logo deram lugar a uma campanha do medo. Flávio ia acabar com o Bolsa Família, cortar as aposentadorias e até tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil – coisa que só o Papa tem poder para fazer.

Essa é a versão popularesca da campanha do medo, e é a mais racional. A versão de classe média alegava que os gays iam ser impedidos de existir; as mulheres, de abortar; e a democracia acabaria. Democracia, no caso em tela, é um conceito esotérico de difícil apreensão. Se a maioria do povo brasileiro é contra o aborto – que, em tese, já é proibido no Brasil –, então a coisa democrática é justamente impedir as mulheres de usarem o aborto como método contraceptivo. A vermos o surto histérico de parte da classe média brasileira, fica-se com a impressão de que uma Era de Aquário do Mal poderia começar caso Flávio vencesse as eleições.

As coisas iam muito bem para Flávio até as 13h22 do dia 25 de outubro. Flávio venceu o primeiro turno com uma vantagem de 2.224.965 votos sobre Lula, e tinha esperanças de herdar boa parte dos votos dos quatro candidatos terceira via, que é majoritariamente antipetista. Os três candidatos antipetistas somados tiveram 5.607.483 votos. O escritor de autoajuda Augusto Cury teve 3.448.569 votos, e os institutos de pesquisa indicavam que os votos dele seriam divididos entre Flávio e Lula no segundo turno. Assim, seria razoável esperar que Flávio ganhasse uns 7 milhões de votos no segundo turno. Lula, por outro lado, contava com a redução da abstenção para reverter o quadro. Expectativa pouco ou nada realista.

Até o início da campanha, Lula nada tinha para oferecer ao povo além de um dia extra de descanso para trabalhadores de carteira assinada, a revogação de um imposto que ele mesmo criou e o fim das apostas que ele mesmo regulamentou. Durante a campanha, ele deu o primeiro aumento em três anos ao Bolsa Família, o programa neoliberal de transferência de renda que o transformou num símbolo da esquerda brasileira, e, perguntado sobre o porquê da demora, disse que não sabia que não houve aumento, e quando descobriu, aumentou. O aumento sequer estava previsto no orçamento. Além disso, prometeu um depósito de 5 mil reais para pequenos empreendedores e uma mesada de 400 reais para estudantes universitários – sendo que o país já está com dívida pública alta e juros de 13,75% ao ano.

O estilo lulista de fazer política foi explicitado mais uma vez no último debate presidencial: tudo o que ele promete é transferência de renda, e toda a sua retórica se baseia em divisão social. Lula chegou ao ponto de dizer que só um presidente nascido no Nordeste poderia cuidar da região, pois as pessoas do Sul e do Sudeste desdenham o Nordeste. Toda crítica a um governo que passou quase 20 anos no poder é interpretada como ódio aos pobres. Lula se coloca como um pobre apenas porque nasceu nessa condição, mas é o único pobre do mundo a ganhar de um banqueiro um uísque Macallan de meio milhão de reais (80 mil euros). Perguntado por Flávio se ele gostaria de pedir desculpas aos brasileiros endividados, Lula afirmou que quem tem que pedir desculpas é a elite.

Diante dessa estagnação incontornável e deliberada, o fato político mais relevante da campanha de Flávio talvez tenha sido a adesão de Roberto Mangabeira Unger e de Aldo Rebelo, dois ex-ministros de Lula. Aldo Rebelo, em virtude da questão ambiental, já havia se aproximado muito do bolsonarismo, então sua adesão em 2026 não é uma surpresa. Mangabeira Unger, porém, é um professor de Harvard que sempre foi próximo do PDT, m partido de esquerda que recentemente se tornou satélite do lulismo, mas que até pouco tempo atrás era desenvolvimentista. Para que as figuras políticas de esquerda campeãs do desenvolvimentismo se aliem todas ao bolsonarismo, falta apenas Ciro Gomes, e foi o assessor dele, Gustavo Castañon, que organizou o encontro entre Flávio, Aldo e Mangabeira, tendo este último pegado um avião nos Estados Unidos para este fim.

Às 13h22 do dia 25, porém, o otimismo da campanha de Flávio começou a fazer água porque o PT pediu ao Tribunal Eleitoral que a votação em algumas cidades da Bahia fosse prorrogada até as 19 horas. As eleições no Brasil vão das 8 às 17h do horário de Brasília, e uma rápida apuração das urnas eletrônicas se segue. A razão do pedido era o suposto complô de prefeitos apoiadores de Flávio para tirar os ônibus da rua e impedir os eleitores de votar. No entanto, os ônibus atrasaram em Salvador porque sindicalistas petistas fizeram um “adesivaço”: quando os ônibus ainda estavam na garagem, colaram adesivos do PT, e se os ônibus circulassem assim, isso configuraria crime eleitoral. Como a circulação de ônibus é assunto da prefeitura, foi a prefeitura que reteve os ônibus para tirar os adesivos, mas até as 10h30 o trânsito já havia sido normalizado (fora que as seções eleitorais ficam a uma curta distância do endereço do eleitor na hora do cadastro do título, e pode ser mudada depois caso o eleitor queira).

Salvador é uma área que dá muitos votos ao PT. Assim, a campanha de Flávio também pediu que as chuvas em cidades de direita fossem pretextos para retardar a eleição naqueles locais. Depois o PT foi direto ao Supremo Tribunal Federal pedir que as eleições fossem prorrogadas em todo o país. O sistema inauditável do STF sorteou o ministro Zanin, ex-adovado pessoal de Lula, que concedeu a prorrogação às 17h05, depois de muitas urnas já terem sido fechadas e desligadas – sendo vedada a sua abertura.

Por fim, veio a apuração, que aconteceu numa ordem diversa da habitual (os votos do Nordeste costumam entrar por último, por exemplo, então numa eleição brasileira normal a direita começa bem e vai derretendo no final da apuração). Para espanto generalizado, Lula melhorou de desempenho em todas as regiões do país. Flávio ganhou apenas 3.721.538 novos votos (o razoável era esperar uns 7 milhões da terceira via), e Lula conseguiu ganhar inacreditáveis 10.376.694 novos votos.

Flávio anunciou que vai pedir a anulação do segundo turno, mas é pouco provável que consiga algo, já que o grande problema do Brasil no presente momento é justamente a confiabilidade do Judiciário – que trata questionamentos às urnas como atentado à democracia.

Justamente pelo fato de que o STF é percebido por grande parte da população brasileira como o maior problema do país, Flávio se empenhou em eleger senadores para poder votar impeachment de ministros do Supremo. E conseguiu: ano que vem, o Senado terá 45 senadores bolsonaristas, o que é mais da metade. Dada a insatisfação da população com o Supremo, não é implausível que eles consigam totalizar 54 votos (dois terços do senado) para tirar no mínimo um ministro.

Lula já governa com o apoio do Supremo para ignorar as casas legislativas e censurar a população. Quando a crise econômica vindoura se somar à política (imagine o leitor que a partir do ano que vem as empresas vão pagar o imposto tão logo recebam seus pagamentos da clientela), o Brasil deve passar por uma convulsão social e enfrentar uma onda repressiva. Não será fácil o fim da Nova República. No presente momento, uma criança já pagou com a sua saúde: numa favela carioca dominada pelo tráfico, as vítimas da sociedade comemoraram a vitória de Lula com fogos e tiros, dos quais um atingiu uma menina.

Muitos antissionistas exigem que o Brasil vote em Lula por causa das crianças da Palestina. Pelo jeito, só as crianças palestinas importam; as brasileiras, jamais.

Brasil: convulsão social à vista

Lula vence com ajuda do STF e promete transferência de renda. Flávio contesta, Senado bolsonarista pode fazer impeachment. Convulsão social à vista.

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Em 2002, Lula ganhou pela primeira vez a eleição com o slogan “A esperança venceu o medo”. Seus adversários alegavam que Lula seria uma espécie de Che Guevara no poder e faria os investimentos correrem – nada mais distante da realidade, pois o presidente é amado pelos banqueiros. De todo modo, não há contraste maior do que aquele entre a primeira e a última vitória de Lula. Nesta, as magras e pouco convincentes propostas de Lula logo deram lugar a uma campanha do medo. Flávio ia acabar com o Bolsa Família, cortar as aposentadorias e até tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil – coisa que só o Papa tem poder para fazer.

Essa é a versão popularesca da campanha do medo, e é a mais racional. A versão de classe média alegava que os gays iam ser impedidos de existir; as mulheres, de abortar; e a democracia acabaria. Democracia, no caso em tela, é um conceito esotérico de difícil apreensão. Se a maioria do povo brasileiro é contra o aborto – que, em tese, já é proibido no Brasil –, então a coisa democrática é justamente impedir as mulheres de usarem o aborto como método contraceptivo. A vermos o surto histérico de parte da classe média brasileira, fica-se com a impressão de que uma Era de Aquário do Mal poderia começar caso Flávio vencesse as eleições.

As coisas iam muito bem para Flávio até as 13h22 do dia 25 de outubro. Flávio venceu o primeiro turno com uma vantagem de 2.224.965 votos sobre Lula, e tinha esperanças de herdar boa parte dos votos dos quatro candidatos terceira via, que é majoritariamente antipetista. Os três candidatos antipetistas somados tiveram 5.607.483 votos. O escritor de autoajuda Augusto Cury teve 3.448.569 votos, e os institutos de pesquisa indicavam que os votos dele seriam divididos entre Flávio e Lula no segundo turno. Assim, seria razoável esperar que Flávio ganhasse uns 7 milhões de votos no segundo turno. Lula, por outro lado, contava com a redução da abstenção para reverter o quadro. Expectativa pouco ou nada realista.

Até o início da campanha, Lula nada tinha para oferecer ao povo além de um dia extra de descanso para trabalhadores de carteira assinada, a revogação de um imposto que ele mesmo criou e o fim das apostas que ele mesmo regulamentou. Durante a campanha, ele deu o primeiro aumento em três anos ao Bolsa Família, o programa neoliberal de transferência de renda que o transformou num símbolo da esquerda brasileira, e, perguntado sobre o porquê da demora, disse que não sabia que não houve aumento, e quando descobriu, aumentou. O aumento sequer estava previsto no orçamento. Além disso, prometeu um depósito de 5 mil reais para pequenos empreendedores e uma mesada de 400 reais para estudantes universitários – sendo que o país já está com dívida pública alta e juros de 13,75% ao ano.

O estilo lulista de fazer política foi explicitado mais uma vez no último debate presidencial: tudo o que ele promete é transferência de renda, e toda a sua retórica se baseia em divisão social. Lula chegou ao ponto de dizer que só um presidente nascido no Nordeste poderia cuidar da região, pois as pessoas do Sul e do Sudeste desdenham o Nordeste. Toda crítica a um governo que passou quase 20 anos no poder é interpretada como ódio aos pobres. Lula se coloca como um pobre apenas porque nasceu nessa condição, mas é o único pobre do mundo a ganhar de um banqueiro um uísque Macallan de meio milhão de reais (80 mil euros). Perguntado por Flávio se ele gostaria de pedir desculpas aos brasileiros endividados, Lula afirmou que quem tem que pedir desculpas é a elite.

Diante dessa estagnação incontornável e deliberada, o fato político mais relevante da campanha de Flávio talvez tenha sido a adesão de Roberto Mangabeira Unger e de Aldo Rebelo, dois ex-ministros de Lula. Aldo Rebelo, em virtude da questão ambiental, já havia se aproximado muito do bolsonarismo, então sua adesão em 2026 não é uma surpresa. Mangabeira Unger, porém, é um professor de Harvard que sempre foi próximo do PDT, m partido de esquerda que recentemente se tornou satélite do lulismo, mas que até pouco tempo atrás era desenvolvimentista. Para que as figuras políticas de esquerda campeãs do desenvolvimentismo se aliem todas ao bolsonarismo, falta apenas Ciro Gomes, e foi o assessor dele, Gustavo Castañon, que organizou o encontro entre Flávio, Aldo e Mangabeira, tendo este último pegado um avião nos Estados Unidos para este fim.

Às 13h22 do dia 25, porém, o otimismo da campanha de Flávio começou a fazer água porque o PT pediu ao Tribunal Eleitoral que a votação em algumas cidades da Bahia fosse prorrogada até as 19 horas. As eleições no Brasil vão das 8 às 17h do horário de Brasília, e uma rápida apuração das urnas eletrônicas se segue. A razão do pedido era o suposto complô de prefeitos apoiadores de Flávio para tirar os ônibus da rua e impedir os eleitores de votar. No entanto, os ônibus atrasaram em Salvador porque sindicalistas petistas fizeram um “adesivaço”: quando os ônibus ainda estavam na garagem, colaram adesivos do PT, e se os ônibus circulassem assim, isso configuraria crime eleitoral. Como a circulação de ônibus é assunto da prefeitura, foi a prefeitura que reteve os ônibus para tirar os adesivos, mas até as 10h30 o trânsito já havia sido normalizado (fora que as seções eleitorais ficam a uma curta distância do endereço do eleitor na hora do cadastro do título, e pode ser mudada depois caso o eleitor queira).

Salvador é uma área que dá muitos votos ao PT. Assim, a campanha de Flávio também pediu que as chuvas em cidades de direita fossem pretextos para retardar a eleição naqueles locais. Depois o PT foi direto ao Supremo Tribunal Federal pedir que as eleições fossem prorrogadas em todo o país. O sistema inauditável do STF sorteou o ministro Zanin, ex-adovado pessoal de Lula, que concedeu a prorrogação às 17h05, depois de muitas urnas já terem sido fechadas e desligadas – sendo vedada a sua abertura.

Por fim, veio a apuração, que aconteceu numa ordem diversa da habitual (os votos do Nordeste costumam entrar por último, por exemplo, então numa eleição brasileira normal a direita começa bem e vai derretendo no final da apuração). Para espanto generalizado, Lula melhorou de desempenho em todas as regiões do país. Flávio ganhou apenas 3.721.538 novos votos (o razoável era esperar uns 7 milhões da terceira via), e Lula conseguiu ganhar inacreditáveis 10.376.694 novos votos.

Flávio anunciou que vai pedir a anulação do segundo turno, mas é pouco provável que consiga algo, já que o grande problema do Brasil no presente momento é justamente a confiabilidade do Judiciário – que trata questionamentos às urnas como atentado à democracia.

Justamente pelo fato de que o STF é percebido por grande parte da população brasileira como o maior problema do país, Flávio se empenhou em eleger senadores para poder votar impeachment de ministros do Supremo. E conseguiu: ano que vem, o Senado terá 45 senadores bolsonaristas, o que é mais da metade. Dada a insatisfação da população com o Supremo, não é implausível que eles consigam totalizar 54 votos (dois terços do senado) para tirar no mínimo um ministro.

Lula já governa com o apoio do Supremo para ignorar as casas legislativas e censurar a população. Quando a crise econômica vindoura se somar à política (imagine o leitor que a partir do ano que vem as empresas vão pagar o imposto tão logo recebam seus pagamentos da clientela), o Brasil deve passar por uma convulsão social e enfrentar uma onda repressiva. Não será fácil o fim da Nova República. No presente momento, uma criança já pagou com a sua saúde: numa favela carioca dominada pelo tráfico, as vítimas da sociedade comemoraram a vitória de Lula com fogos e tiros, dos quais um atingiu uma menina.

Muitos antissionistas exigem que o Brasil vote em Lula por causa das crianças da Palestina. Pelo jeito, só as crianças palestinas importam; as brasileiras, jamais.

Lula vence com ajuda do STF e promete transferência de renda. Flávio contesta, Senado bolsonarista pode fazer impeachment. Convulsão social à vista.

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Em 2002, Lula ganhou pela primeira vez a eleição com o slogan “A esperança venceu o medo”. Seus adversários alegavam que Lula seria uma espécie de Che Guevara no poder e faria os investimentos correrem – nada mais distante da realidade, pois o presidente é amado pelos banqueiros. De todo modo, não há contraste maior do que aquele entre a primeira e a última vitória de Lula. Nesta, as magras e pouco convincentes propostas de Lula logo deram lugar a uma campanha do medo. Flávio ia acabar com o Bolsa Família, cortar as aposentadorias e até tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil – coisa que só o Papa tem poder para fazer.

Essa é a versão popularesca da campanha do medo, e é a mais racional. A versão de classe média alegava que os gays iam ser impedidos de existir; as mulheres, de abortar; e a democracia acabaria. Democracia, no caso em tela, é um conceito esotérico de difícil apreensão. Se a maioria do povo brasileiro é contra o aborto – que, em tese, já é proibido no Brasil –, então a coisa democrática é justamente impedir as mulheres de usarem o aborto como método contraceptivo. A vermos o surto histérico de parte da classe média brasileira, fica-se com a impressão de que uma Era de Aquário do Mal poderia começar caso Flávio vencesse as eleições.

As coisas iam muito bem para Flávio até as 13h22 do dia 25 de outubro. Flávio venceu o primeiro turno com uma vantagem de 2.224.965 votos sobre Lula, e tinha esperanças de herdar boa parte dos votos dos quatro candidatos terceira via, que é majoritariamente antipetista. Os três candidatos antipetistas somados tiveram 5.607.483 votos. O escritor de autoajuda Augusto Cury teve 3.448.569 votos, e os institutos de pesquisa indicavam que os votos dele seriam divididos entre Flávio e Lula no segundo turno. Assim, seria razoável esperar que Flávio ganhasse uns 7 milhões de votos no segundo turno. Lula, por outro lado, contava com a redução da abstenção para reverter o quadro. Expectativa pouco ou nada realista.

Até o início da campanha, Lula nada tinha para oferecer ao povo além de um dia extra de descanso para trabalhadores de carteira assinada, a revogação de um imposto que ele mesmo criou e o fim das apostas que ele mesmo regulamentou. Durante a campanha, ele deu o primeiro aumento em três anos ao Bolsa Família, o programa neoliberal de transferência de renda que o transformou num símbolo da esquerda brasileira, e, perguntado sobre o porquê da demora, disse que não sabia que não houve aumento, e quando descobriu, aumentou. O aumento sequer estava previsto no orçamento. Além disso, prometeu um depósito de 5 mil reais para pequenos empreendedores e uma mesada de 400 reais para estudantes universitários – sendo que o país já está com dívida pública alta e juros de 13,75% ao ano.

O estilo lulista de fazer política foi explicitado mais uma vez no último debate presidencial: tudo o que ele promete é transferência de renda, e toda a sua retórica se baseia em divisão social. Lula chegou ao ponto de dizer que só um presidente nascido no Nordeste poderia cuidar da região, pois as pessoas do Sul e do Sudeste desdenham o Nordeste. Toda crítica a um governo que passou quase 20 anos no poder é interpretada como ódio aos pobres. Lula se coloca como um pobre apenas porque nasceu nessa condição, mas é o único pobre do mundo a ganhar de um banqueiro um uísque Macallan de meio milhão de reais (80 mil euros). Perguntado por Flávio se ele gostaria de pedir desculpas aos brasileiros endividados, Lula afirmou que quem tem que pedir desculpas é a elite.

Diante dessa estagnação incontornável e deliberada, o fato político mais relevante da campanha de Flávio talvez tenha sido a adesão de Roberto Mangabeira Unger e de Aldo Rebelo, dois ex-ministros de Lula. Aldo Rebelo, em virtude da questão ambiental, já havia se aproximado muito do bolsonarismo, então sua adesão em 2026 não é uma surpresa. Mangabeira Unger, porém, é um professor de Harvard que sempre foi próximo do PDT, m partido de esquerda que recentemente se tornou satélite do lulismo, mas que até pouco tempo atrás era desenvolvimentista. Para que as figuras políticas de esquerda campeãs do desenvolvimentismo se aliem todas ao bolsonarismo, falta apenas Ciro Gomes, e foi o assessor dele, Gustavo Castañon, que organizou o encontro entre Flávio, Aldo e Mangabeira, tendo este último pegado um avião nos Estados Unidos para este fim.

Às 13h22 do dia 25, porém, o otimismo da campanha de Flávio começou a fazer água porque o PT pediu ao Tribunal Eleitoral que a votação em algumas cidades da Bahia fosse prorrogada até as 19 horas. As eleições no Brasil vão das 8 às 17h do horário de Brasília, e uma rápida apuração das urnas eletrônicas se segue. A razão do pedido era o suposto complô de prefeitos apoiadores de Flávio para tirar os ônibus da rua e impedir os eleitores de votar. No entanto, os ônibus atrasaram em Salvador porque sindicalistas petistas fizeram um “adesivaço”: quando os ônibus ainda estavam na garagem, colaram adesivos do PT, e se os ônibus circulassem assim, isso configuraria crime eleitoral. Como a circulação de ônibus é assunto da prefeitura, foi a prefeitura que reteve os ônibus para tirar os adesivos, mas até as 10h30 o trânsito já havia sido normalizado (fora que as seções eleitorais ficam a uma curta distância do endereço do eleitor na hora do cadastro do título, e pode ser mudada depois caso o eleitor queira).

Salvador é uma área que dá muitos votos ao PT. Assim, a campanha de Flávio também pediu que as chuvas em cidades de direita fossem pretextos para retardar a eleição naqueles locais. Depois o PT foi direto ao Supremo Tribunal Federal pedir que as eleições fossem prorrogadas em todo o país. O sistema inauditável do STF sorteou o ministro Zanin, ex-adovado pessoal de Lula, que concedeu a prorrogação às 17h05, depois de muitas urnas já terem sido fechadas e desligadas – sendo vedada a sua abertura.

Por fim, veio a apuração, que aconteceu numa ordem diversa da habitual (os votos do Nordeste costumam entrar por último, por exemplo, então numa eleição brasileira normal a direita começa bem e vai derretendo no final da apuração). Para espanto generalizado, Lula melhorou de desempenho em todas as regiões do país. Flávio ganhou apenas 3.721.538 novos votos (o razoável era esperar uns 7 milhões da terceira via), e Lula conseguiu ganhar inacreditáveis 10.376.694 novos votos.

Flávio anunciou que vai pedir a anulação do segundo turno, mas é pouco provável que consiga algo, já que o grande problema do Brasil no presente momento é justamente a confiabilidade do Judiciário – que trata questionamentos às urnas como atentado à democracia.

Justamente pelo fato de que o STF é percebido por grande parte da população brasileira como o maior problema do país, Flávio se empenhou em eleger senadores para poder votar impeachment de ministros do Supremo. E conseguiu: ano que vem, o Senado terá 45 senadores bolsonaristas, o que é mais da metade. Dada a insatisfação da população com o Supremo, não é implausível que eles consigam totalizar 54 votos (dois terços do senado) para tirar no mínimo um ministro.

Lula já governa com o apoio do Supremo para ignorar as casas legislativas e censurar a população. Quando a crise econômica vindoura se somar à política (imagine o leitor que a partir do ano que vem as empresas vão pagar o imposto tão logo recebam seus pagamentos da clientela), o Brasil deve passar por uma convulsão social e enfrentar uma onda repressiva. Não será fácil o fim da Nova República. No presente momento, uma criança já pagou com a sua saúde: numa favela carioca dominada pelo tráfico, as vítimas da sociedade comemoraram a vitória de Lula com fogos e tiros, dos quais um atingiu uma menina.

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