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Lorenzo Carrasco
November 8, 2026
© WA

Entre a crise do «Ocidente coletivo» e a construção de uma nova ordem mundial

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A grande confusão sobre o destino do Ocidente

Em meio às profundas transformações da ordem mundial, agravadas pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, duas interpretações aparentemente opostas disputam o significado e o destino da civilização ocidental. De um lado, encontram-se aqueles que, diante do declínio da hegemonia anglo-americana e da ascensão das potências euroasiáticas, proclamam o fim inevitável do Ocidente, que seria substituído por uma nova ordem mundial dominada pela China, pela Rússia e por outros centros de poder. De outro, estão aqueles que pretendem preservar a supremacia do chamado «Ocidente coletivo», identificando a sobrevivência da civilização ocidental com a manutenção de suas estruturas político-militares e financeiras.

Embora antagônicas, ambas as interpretações incorrem na mesma confusão fundamental: identificam uma civilização milenar com uma estrutura de poder historicamente transitória. A civilização ocidental não nasceu com a OTAN, com a União Europeia ou com Wall Street. Suas raízes remontam à filosofia grega, ao Direito romano e, decisivamente, à síntese civilizatória proporcionada pelo cristianismo.

Da mesma forma, Europa e União Europeia não são sinônimos. A primeira é uma realidade histórica constituída por nações, culturas e tradições espirituais que atravessaram séculos. A segunda é uma construção político-institucional contemporânea que, ao concentrar progressivamente competências supranacionais, é acusada de distanciar-se dos interesses e das aspirações dos povos europeus.

A Europa das verdadeiras nações não desapareceu com a constituição das instituições de Bruxelas. Tampouco se resume às decisões de sua burocracia comunitária ou às orientações estratégicas da OTAN. Sua identidade histórica permanece vinculada à herança greco-romana, ao cristianismo, à formação das universidades, ao desenvolvimento das ciências, às grandes tradições jurídicas e à diversidade cultural de seus povos.

Está, sobretudo, associada ao longo processo medieval de formação das comunidades políticas europeias e ao processo do qual surgiriam os Estados nacionais, ainda inseridos em uma concepção cristã do poder, do direito e do bem comum. Nesse sentido, a Europa não nasceu em Bruxelas: Bruxelas é apenas uma construção institucional recente dentro de uma história civilizatória muito mais antiga.

Marco Rubio no Partenon: qual Ocidente se pretende defender?

Essa contradição adquiriu uma dimensão particularmente reveladora no discurso pronunciado pelo secretário de Estado estadunidense Marco Rubio, em Atenas, em 7 de outubro de 2026, tendo como cenário simbólico a Acrópole e o Partenon. Rubio procurou estabelecer uma continuidade histórica entre a Grécia antiga, Roma, a cristandade europeia e os Estados Unidos, apresentados como herdeiros daquela tradição. Destacou a razão, a ciência, o heroísmo, a excelência e a ambição como atributos da grandeza ocidental, relacionando-os à necessidade de recuperar a supremacia estadunidense.

Entretanto, existe uma contradição fundamental entre a universalidade do legado greco-romano e cristão e sua utilização como justificativa para a supremacia de uma potência.

A Grécia não legou à humanidade apenas a exaltação da excelência e da competição, mas também, por intermédio de Sócrates, Platão e Aristóteles, a reflexão sobre a verdade, a justiça, a virtude e a natureza do Bem. Roma acrescentou a tradição jurídica, enquanto o cristianismo estabeleceu uma concepção da dignidade humana que transcende a nacionalidade, a riqueza e o poder.

Há, ademais, uma ironia histórica no cenário escolhido por Rubio. O Partenon foi vítima de um dos mais célebres episódios de espoliação cultural do imperialismo britânico. Entre 1801 e 1812, Lord Elgin, embaixador britânico junto ao Império Otomano, promoveu a remoção de parte substancial de suas esculturas, posteriormente incorporadas ao Museu Britânico, onde permanecem apesar das reivindicações gregas de restituição.

Tamanha admiração pela civilização grega que uma das maiores potências imperiais do Ocidente não se contentou em contemplar suas obras-primas: levou consigo as pedras e esculturas de seus monumentos mais sagrados.

Dois séculos depois, um representante do poder estadunidense retorna simbolicamente ao mesmo cenário para proclamar a grandeza ocidental. A verdadeira universalidade de uma civilização, entretanto, não se demonstra pela apropriação das realizações alheias, mas pelo respeito aos povos que as produziram.

Platão contra Trasímaco: a justiça não é o direito do mais forte

Essa contradição também merece ser examinada à luz da influência de Leo Strauss e de determinadas interpretações da filosofia clássica no pensamento neoconservador estadunidense. Alguns intelectuais neoconservadores que reivindicam Platão parecem esquecer a lição fundamental de A República, particularmente o diálogo em que Trasímaco sustenta que a justiça é a conveniência do mais forte. Em outras palavras, os governantes estabelecem as leis segundo seus interesses e pretendem que os governados reconheçam como justo aquilo que favorece os detentores do poder.

É precisamente essa identificação entre justiça e força que Sócrates questiona, argumentando que a autoridade deve orientar-se para o bem daqueles que estão sob sua responsabilidade. Não se trata de atribuir diretamente a Strauss a doutrina de Trasímaco, mas de reconhecer que certas interpretações políticas do legado clássico parecem aproximar-se mais da concepção do sofista do que da crítica socrático-platônica.

Essa contradição tornou-se particularmente evidente após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução da União Soviética, em 1991. Em lugar de aproveitar aquela oportunidade histórica para construir uma ordem cooperativa, prevaleceu em Washington a expectativa de uma prolongada supremacia unipolar, acompanhada pelas chamadas «guerras perpétuas».

A expressão mais inquietante dessa concepção ocorreu em abril de 2026, quando Donald Trump, durante o confronto com o Irã, ameaçou publicamente o desaparecimento de toda uma civilização. A ameaça contra a milenar civilização persa representa uma contradição moral com os próprios princípios universais proclamados pela Declaração de Independência estadunidense, fundamentados nas leis da natureza e do Criador.

A justiça não nasce do poder, nem a verdade se estabelece pela força. É o poder que deve submeter-se à verdade, à justiça e ao Bem Comum.

A verdadeira civilização ocidental e suas raízes cristãs

Diante dessas contradições, torna-se indispensável recuperar uma definição rigorosa da civilização ocidental.

A síntese entre a filosofia grega, o Direito romano e o cristianismo estabeleceu os fundamentos de uma concepção da sociedade na qual a autoridade política não constitui um fim em si mesma, mas deve orientar-se para a realização do Bem Comum.

Esse patrimônio encontrou uma expressão moderna particularmente importante na Doutrina Social da Igreja Católica, desde a Rerum Novarum, de Leão XIII, até os grandes documentos sociais dos séculos XX e XXI. A dignidade da pessoa humana, o Direito Natural, a solidariedade, a subsidiariedade e a destinação universal dos bens constituem princípios essenciais dessa tradição. Esses fundamentos adquirem hoje uma relevância extraordinária, precisamente porque a crise mundial não é apenas econômica, financeira, política ou militar. É, em última instância, uma crise espiritual, manifestada na perda dos princípios morais e transcendentes que deveriam orientar o exercício do poder e a organização da sociedade.

Nesse sentido, a Doutrina Social da Igreja oferece fundamentos extraordinariamente atuais para a construção de uma verdadeira ordem mundial multipolar.

Na encíclica Pacem in Terris (1963), João XXIII defendeu a necessidade de uma autoridade pública mundial capaz de promover o Bem Comum universal, ressaltando que sua legitimidade deveria decorrer do acordo entre as nações, jamais da imposição das grandes potências.

O Concílio Vaticano II, na constituição pastoral Gaudium et Spes (1965), aprofundou essa concepção, enquanto Paulo VI, na Populorum Progressio (1967), vinculou a construção de uma ordem jurídica universal ao desenvolvimento integral de todos os homens e de todos os povos.

Trata-se de uma concepção radicalmente distinta de qualquer governo mundial oligárquico ou imperial. A autoridade internacional legítima não deve suprimir a soberania das nações, mas assegurar condições para sua realização dentro de uma comunidade internacional cooperativa.

A herança ibérica e a identidade civilizatória da Ibero-América

Para nós, povos da Ibero-América, essa reflexão possui especial significado.

Somos herdeiros de uma tradição civilizatória que, a partir das grandes navegações portuguesas e castelhanas dos séculos XV e XVI, projetou o cristianismo para além da Europa, dando origem a novas sociedades formadas pelo encontro entre povos europeus, indígenas e africanos.

Esse processo não pode ser reduzido às categorias do colonialismo mercantil, embora tenha sido acompanhado por guerras de conquista, exploração e graves injustiças. A tradição ibérica também produziu uma extraordinária reflexão sobre os direitos naturais dos povos, particularmente por intermédio de Francisco de Vitoria e da Escola de Salamanca, que estabeleceram importantes limites morais à conquista e ao exercício do poder.

É necessário distinguir essa dimensão civilizatória dos sistemas de dominação mercantil associados à ascensão das potências anglo-holandesas, especialmente a partir dos séculos XVI e XVII, com suas companhias comerciais privilegiadas, monopólios, corso, pirataria e crescente concentração do poder financeiro.

Naturalmente, as próprias monarquias ibéricas também exerceram práticas coloniais coercitivas. A distinção essencial não reside em absolver uns e condenar outros, mas em reconhecer a diferença entre os princípios universais de uma civilização e os interesses particulares dos impérios que pretendem representá-la.

A Ibero-América, herdeira dessa tradição cristã e enriquecida por sua própria diversidade cultural, possui uma contribuição singular a oferecer à construção de uma nova ordem mundial.

Leão XIV na França: a Europa cristã continua viva

Em meio à crise existencial das atuais estruturas políticas europeias, a visita apostólica do papa Leão XIV à França, em setembro de 2026, oferece um sinal significativo da vitalidade das raízes cristãs do continente.

As manifestações multitudinárias de acolhimento ao Pontífice, especialmente a participação de jovens, contrastaram com a imagem de uma Europa cuja secularização teria eliminado definitivamente sua identidade religiosa.

O entusiasmo manifestado na França não demonstra, por si só, a existência de um renascimento cristão generalizado em toda a Europa. Entretanto, revela que a tradição religiosa permanece capaz de mobilizar importantes setores da sociedade, inclusive novas gerações. Esse fenômeno adquire especial significado em um continente marcado por crises econômicas, perda de confiança nas instituições e crescente insatisfação com as políticas governamentais, particularmente no terreno energético e militar.

A França constitui um exemplo expressivo dessa contradição. Ao mesmo tempo em que manifesta uma importante vitalidade religiosa, experimenta tensões sociais que, em determinadas circunstâncias, desembocam em confrontos violentos, inclusive com a mais que esperada participação dos Black Blocs. Não poucos observadores os consideram como grupos paramilitares adredemente financiados e treinados nos moldes das redes da Operação Gládio da OTAN, das décadas de 1970-80, especificamente para infiltrações de protestos populares legítimos e provocar tensões sociais e políticas, com o intuito de justificar fortes repressões dos governos dos países afetados. Os governos europeus deveriam reconhecer os riscos de uma crescente ruptura entre as instituições e as aspirações de suas populações. A incapacidade de responder às reivindicações sociais legítimas pode favorecer processos de radicalização, violência e repressão.

A renovação espiritual, por sua vez, pode contribuir para a reconstrução da coesão social, da solidariedade e da confiança, desde que não seja convertida em instrumento de confrontação política. A visita de Leão XIV recorda, sobretudo, que a Europa cristã não desapareceu com a secularização de suas instituições políticas.

A União Europeia não é a Europa, assim como o chamado «Ocidente coletivo» não é a civilização ocidental.

A grande encruzilhada: guerra global ou ordem mundial cooperativa

Não se trata, portanto, de uma discussão meramente acadêmica sobre o significado histórico do Ocidente.

A maneira pela qual as grandes potências compreendem sua própria identidade civilizatória e suas relações com os demais povos possui consequências diretas sobre a guerra, a paz e a organização da economia mundial. Se prevalecer a concepção segundo a qual a grandeza de uma civilização se mede por sua capacidade de dominar outras, a emergência de um mundo multipolar poderá converter-se em uma confrontação permanente entre centros rivais de poder. Nesse cenário, o declínio da hegemonia anglo-americana e a ascensão das potências euroasiáticas poderiam conduzir não a uma ordem internacional mais justa, mas a uma guerra global de consequências potencialmente devastadoras.

A alternativa consiste em superar o próprio princípio da hegemonia como fundamento das relações internacionais.

O Direito Natural e a Doutrina Social da Igreja oferecem princípios para conceber uma comunidade de nações plenamente soberanas, orientadas para o desenvolvimento integral de seus povos, dentro de uma ordem jurídica internacional legítima e cooperativa. A recuperação das raízes cristãs da civilização ocidental não deve representar a restauração de uma supremacia imperial, mas a reafirmação de sua contribuição universal à dignidade humana, à justiça e ao Bem Comum.

O mesmo princípio deve orientar as potências euroasiáticas: nenhuma civilização possui o direito de impor unilateralmente seus interesses ao conjunto da humanidade. A crise contemporânea é, em última instância, espiritual, porque envolve os próprios fundamentos morais que deveriam orientar o exercício do poder.

Superá-la exige recuperar a lição que Sócrates opôs a Trasímaco: a justiça não pode ser reduzida à conveniência do mais forte.

Entre a confrontação que pode conduzir a uma guerra global e o entendimento que permita estabelecer uma ordem mundial cooperativa, fundamentada no Direito Natural e na dignidade das nações, encontra-se a grande encruzilhada do nosso tempo.

E é nessa encruzilhada, não na disputa pela supremacia entre Ocidente e Oriente, que se joga o verdadeiro destino da civilização.

O fim do Ocidente ou o renascimento da civilização ocidental?

Entre a crise do «Ocidente coletivo» e a construção de uma nova ordem mundial

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A grande confusão sobre o destino do Ocidente

Em meio às profundas transformações da ordem mundial, agravadas pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, duas interpretações aparentemente opostas disputam o significado e o destino da civilização ocidental. De um lado, encontram-se aqueles que, diante do declínio da hegemonia anglo-americana e da ascensão das potências euroasiáticas, proclamam o fim inevitável do Ocidente, que seria substituído por uma nova ordem mundial dominada pela China, pela Rússia e por outros centros de poder. De outro, estão aqueles que pretendem preservar a supremacia do chamado «Ocidente coletivo», identificando a sobrevivência da civilização ocidental com a manutenção de suas estruturas político-militares e financeiras.

Embora antagônicas, ambas as interpretações incorrem na mesma confusão fundamental: identificam uma civilização milenar com uma estrutura de poder historicamente transitória. A civilização ocidental não nasceu com a OTAN, com a União Europeia ou com Wall Street. Suas raízes remontam à filosofia grega, ao Direito romano e, decisivamente, à síntese civilizatória proporcionada pelo cristianismo.

Da mesma forma, Europa e União Europeia não são sinônimos. A primeira é uma realidade histórica constituída por nações, culturas e tradições espirituais que atravessaram séculos. A segunda é uma construção político-institucional contemporânea que, ao concentrar progressivamente competências supranacionais, é acusada de distanciar-se dos interesses e das aspirações dos povos europeus.

A Europa das verdadeiras nações não desapareceu com a constituição das instituições de Bruxelas. Tampouco se resume às decisões de sua burocracia comunitária ou às orientações estratégicas da OTAN. Sua identidade histórica permanece vinculada à herança greco-romana, ao cristianismo, à formação das universidades, ao desenvolvimento das ciências, às grandes tradições jurídicas e à diversidade cultural de seus povos.

Está, sobretudo, associada ao longo processo medieval de formação das comunidades políticas europeias e ao processo do qual surgiriam os Estados nacionais, ainda inseridos em uma concepção cristã do poder, do direito e do bem comum. Nesse sentido, a Europa não nasceu em Bruxelas: Bruxelas é apenas uma construção institucional recente dentro de uma história civilizatória muito mais antiga.

Marco Rubio no Partenon: qual Ocidente se pretende defender?

Essa contradição adquiriu uma dimensão particularmente reveladora no discurso pronunciado pelo secretário de Estado estadunidense Marco Rubio, em Atenas, em 7 de outubro de 2026, tendo como cenário simbólico a Acrópole e o Partenon. Rubio procurou estabelecer uma continuidade histórica entre a Grécia antiga, Roma, a cristandade europeia e os Estados Unidos, apresentados como herdeiros daquela tradição. Destacou a razão, a ciência, o heroísmo, a excelência e a ambição como atributos da grandeza ocidental, relacionando-os à necessidade de recuperar a supremacia estadunidense.

Entretanto, existe uma contradição fundamental entre a universalidade do legado greco-romano e cristão e sua utilização como justificativa para a supremacia de uma potência.

A Grécia não legou à humanidade apenas a exaltação da excelência e da competição, mas também, por intermédio de Sócrates, Platão e Aristóteles, a reflexão sobre a verdade, a justiça, a virtude e a natureza do Bem. Roma acrescentou a tradição jurídica, enquanto o cristianismo estabeleceu uma concepção da dignidade humana que transcende a nacionalidade, a riqueza e o poder.

Há, ademais, uma ironia histórica no cenário escolhido por Rubio. O Partenon foi vítima de um dos mais célebres episódios de espoliação cultural do imperialismo britânico. Entre 1801 e 1812, Lord Elgin, embaixador britânico junto ao Império Otomano, promoveu a remoção de parte substancial de suas esculturas, posteriormente incorporadas ao Museu Britânico, onde permanecem apesar das reivindicações gregas de restituição.

Tamanha admiração pela civilização grega que uma das maiores potências imperiais do Ocidente não se contentou em contemplar suas obras-primas: levou consigo as pedras e esculturas de seus monumentos mais sagrados.

Dois séculos depois, um representante do poder estadunidense retorna simbolicamente ao mesmo cenário para proclamar a grandeza ocidental. A verdadeira universalidade de uma civilização, entretanto, não se demonstra pela apropriação das realizações alheias, mas pelo respeito aos povos que as produziram.

Platão contra Trasímaco: a justiça não é o direito do mais forte

Essa contradição também merece ser examinada à luz da influência de Leo Strauss e de determinadas interpretações da filosofia clássica no pensamento neoconservador estadunidense. Alguns intelectuais neoconservadores que reivindicam Platão parecem esquecer a lição fundamental de A República, particularmente o diálogo em que Trasímaco sustenta que a justiça é a conveniência do mais forte. Em outras palavras, os governantes estabelecem as leis segundo seus interesses e pretendem que os governados reconheçam como justo aquilo que favorece os detentores do poder.

É precisamente essa identificação entre justiça e força que Sócrates questiona, argumentando que a autoridade deve orientar-se para o bem daqueles que estão sob sua responsabilidade. Não se trata de atribuir diretamente a Strauss a doutrina de Trasímaco, mas de reconhecer que certas interpretações políticas do legado clássico parecem aproximar-se mais da concepção do sofista do que da crítica socrático-platônica.

Essa contradição tornou-se particularmente evidente após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução da União Soviética, em 1991. Em lugar de aproveitar aquela oportunidade histórica para construir uma ordem cooperativa, prevaleceu em Washington a expectativa de uma prolongada supremacia unipolar, acompanhada pelas chamadas «guerras perpétuas».

A expressão mais inquietante dessa concepção ocorreu em abril de 2026, quando Donald Trump, durante o confronto com o Irã, ameaçou publicamente o desaparecimento de toda uma civilização. A ameaça contra a milenar civilização persa representa uma contradição moral com os próprios princípios universais proclamados pela Declaração de Independência estadunidense, fundamentados nas leis da natureza e do Criador.

A justiça não nasce do poder, nem a verdade se estabelece pela força. É o poder que deve submeter-se à verdade, à justiça e ao Bem Comum.

A verdadeira civilização ocidental e suas raízes cristãs

Diante dessas contradições, torna-se indispensável recuperar uma definição rigorosa da civilização ocidental.

A síntese entre a filosofia grega, o Direito romano e o cristianismo estabeleceu os fundamentos de uma concepção da sociedade na qual a autoridade política não constitui um fim em si mesma, mas deve orientar-se para a realização do Bem Comum.

Esse patrimônio encontrou uma expressão moderna particularmente importante na Doutrina Social da Igreja Católica, desde a Rerum Novarum, de Leão XIII, até os grandes documentos sociais dos séculos XX e XXI. A dignidade da pessoa humana, o Direito Natural, a solidariedade, a subsidiariedade e a destinação universal dos bens constituem princípios essenciais dessa tradição. Esses fundamentos adquirem hoje uma relevância extraordinária, precisamente porque a crise mundial não é apenas econômica, financeira, política ou militar. É, em última instância, uma crise espiritual, manifestada na perda dos princípios morais e transcendentes que deveriam orientar o exercício do poder e a organização da sociedade.

Nesse sentido, a Doutrina Social da Igreja oferece fundamentos extraordinariamente atuais para a construção de uma verdadeira ordem mundial multipolar.

Na encíclica Pacem in Terris (1963), João XXIII defendeu a necessidade de uma autoridade pública mundial capaz de promover o Bem Comum universal, ressaltando que sua legitimidade deveria decorrer do acordo entre as nações, jamais da imposição das grandes potências.

O Concílio Vaticano II, na constituição pastoral Gaudium et Spes (1965), aprofundou essa concepção, enquanto Paulo VI, na Populorum Progressio (1967), vinculou a construção de uma ordem jurídica universal ao desenvolvimento integral de todos os homens e de todos os povos.

Trata-se de uma concepção radicalmente distinta de qualquer governo mundial oligárquico ou imperial. A autoridade internacional legítima não deve suprimir a soberania das nações, mas assegurar condições para sua realização dentro de uma comunidade internacional cooperativa.

A herança ibérica e a identidade civilizatória da Ibero-América

Para nós, povos da Ibero-América, essa reflexão possui especial significado.

Somos herdeiros de uma tradição civilizatória que, a partir das grandes navegações portuguesas e castelhanas dos séculos XV e XVI, projetou o cristianismo para além da Europa, dando origem a novas sociedades formadas pelo encontro entre povos europeus, indígenas e africanos.

Esse processo não pode ser reduzido às categorias do colonialismo mercantil, embora tenha sido acompanhado por guerras de conquista, exploração e graves injustiças. A tradição ibérica também produziu uma extraordinária reflexão sobre os direitos naturais dos povos, particularmente por intermédio de Francisco de Vitoria e da Escola de Salamanca, que estabeleceram importantes limites morais à conquista e ao exercício do poder.

É necessário distinguir essa dimensão civilizatória dos sistemas de dominação mercantil associados à ascensão das potências anglo-holandesas, especialmente a partir dos séculos XVI e XVII, com suas companhias comerciais privilegiadas, monopólios, corso, pirataria e crescente concentração do poder financeiro.

Naturalmente, as próprias monarquias ibéricas também exerceram práticas coloniais coercitivas. A distinção essencial não reside em absolver uns e condenar outros, mas em reconhecer a diferença entre os princípios universais de uma civilização e os interesses particulares dos impérios que pretendem representá-la.

A Ibero-América, herdeira dessa tradição cristã e enriquecida por sua própria diversidade cultural, possui uma contribuição singular a oferecer à construção de uma nova ordem mundial.

Leão XIV na França: a Europa cristã continua viva

Em meio à crise existencial das atuais estruturas políticas europeias, a visita apostólica do papa Leão XIV à França, em setembro de 2026, oferece um sinal significativo da vitalidade das raízes cristãs do continente.

As manifestações multitudinárias de acolhimento ao Pontífice, especialmente a participação de jovens, contrastaram com a imagem de uma Europa cuja secularização teria eliminado definitivamente sua identidade religiosa.

O entusiasmo manifestado na França não demonstra, por si só, a existência de um renascimento cristão generalizado em toda a Europa. Entretanto, revela que a tradição religiosa permanece capaz de mobilizar importantes setores da sociedade, inclusive novas gerações. Esse fenômeno adquire especial significado em um continente marcado por crises econômicas, perda de confiança nas instituições e crescente insatisfação com as políticas governamentais, particularmente no terreno energético e militar.

A França constitui um exemplo expressivo dessa contradição. Ao mesmo tempo em que manifesta uma importante vitalidade religiosa, experimenta tensões sociais que, em determinadas circunstâncias, desembocam em confrontos violentos, inclusive com a mais que esperada participação dos Black Blocs. Não poucos observadores os consideram como grupos paramilitares adredemente financiados e treinados nos moldes das redes da Operação Gládio da OTAN, das décadas de 1970-80, especificamente para infiltrações de protestos populares legítimos e provocar tensões sociais e políticas, com o intuito de justificar fortes repressões dos governos dos países afetados. Os governos europeus deveriam reconhecer os riscos de uma crescente ruptura entre as instituições e as aspirações de suas populações. A incapacidade de responder às reivindicações sociais legítimas pode favorecer processos de radicalização, violência e repressão.

A renovação espiritual, por sua vez, pode contribuir para a reconstrução da coesão social, da solidariedade e da confiança, desde que não seja convertida em instrumento de confrontação política. A visita de Leão XIV recorda, sobretudo, que a Europa cristã não desapareceu com a secularização de suas instituições políticas.

A União Europeia não é a Europa, assim como o chamado «Ocidente coletivo» não é a civilização ocidental.

A grande encruzilhada: guerra global ou ordem mundial cooperativa

Não se trata, portanto, de uma discussão meramente acadêmica sobre o significado histórico do Ocidente.

A maneira pela qual as grandes potências compreendem sua própria identidade civilizatória e suas relações com os demais povos possui consequências diretas sobre a guerra, a paz e a organização da economia mundial. Se prevalecer a concepção segundo a qual a grandeza de uma civilização se mede por sua capacidade de dominar outras, a emergência de um mundo multipolar poderá converter-se em uma confrontação permanente entre centros rivais de poder. Nesse cenário, o declínio da hegemonia anglo-americana e a ascensão das potências euroasiáticas poderiam conduzir não a uma ordem internacional mais justa, mas a uma guerra global de consequências potencialmente devastadoras.

A alternativa consiste em superar o próprio princípio da hegemonia como fundamento das relações internacionais.

O Direito Natural e a Doutrina Social da Igreja oferecem princípios para conceber uma comunidade de nações plenamente soberanas, orientadas para o desenvolvimento integral de seus povos, dentro de uma ordem jurídica internacional legítima e cooperativa. A recuperação das raízes cristãs da civilização ocidental não deve representar a restauração de uma supremacia imperial, mas a reafirmação de sua contribuição universal à dignidade humana, à justiça e ao Bem Comum.

O mesmo princípio deve orientar as potências euroasiáticas: nenhuma civilização possui o direito de impor unilateralmente seus interesses ao conjunto da humanidade. A crise contemporânea é, em última instância, espiritual, porque envolve os próprios fundamentos morais que deveriam orientar o exercício do poder.

Superá-la exige recuperar a lição que Sócrates opôs a Trasímaco: a justiça não pode ser reduzida à conveniência do mais forte.

Entre a confrontação que pode conduzir a uma guerra global e o entendimento que permita estabelecer uma ordem mundial cooperativa, fundamentada no Direito Natural e na dignidade das nações, encontra-se a grande encruzilhada do nosso tempo.

E é nessa encruzilhada, não na disputa pela supremacia entre Ocidente e Oriente, que se joga o verdadeiro destino da civilização.

Entre a crise do «Ocidente coletivo» e a construção de uma nova ordem mundial

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Escreva para nós: @worldanalyticspress_bot

A grande confusão sobre o destino do Ocidente

Em meio às profundas transformações da ordem mundial, agravadas pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, duas interpretações aparentemente opostas disputam o significado e o destino da civilização ocidental. De um lado, encontram-se aqueles que, diante do declínio da hegemonia anglo-americana e da ascensão das potências euroasiáticas, proclamam o fim inevitável do Ocidente, que seria substituído por uma nova ordem mundial dominada pela China, pela Rússia e por outros centros de poder. De outro, estão aqueles que pretendem preservar a supremacia do chamado «Ocidente coletivo», identificando a sobrevivência da civilização ocidental com a manutenção de suas estruturas político-militares e financeiras.

Embora antagônicas, ambas as interpretações incorrem na mesma confusão fundamental: identificam uma civilização milenar com uma estrutura de poder historicamente transitória. A civilização ocidental não nasceu com a OTAN, com a União Europeia ou com Wall Street. Suas raízes remontam à filosofia grega, ao Direito romano e, decisivamente, à síntese civilizatória proporcionada pelo cristianismo.

Da mesma forma, Europa e União Europeia não são sinônimos. A primeira é uma realidade histórica constituída por nações, culturas e tradições espirituais que atravessaram séculos. A segunda é uma construção político-institucional contemporânea que, ao concentrar progressivamente competências supranacionais, é acusada de distanciar-se dos interesses e das aspirações dos povos europeus.

A Europa das verdadeiras nações não desapareceu com a constituição das instituições de Bruxelas. Tampouco se resume às decisões de sua burocracia comunitária ou às orientações estratégicas da OTAN. Sua identidade histórica permanece vinculada à herança greco-romana, ao cristianismo, à formação das universidades, ao desenvolvimento das ciências, às grandes tradições jurídicas e à diversidade cultural de seus povos.

Está, sobretudo, associada ao longo processo medieval de formação das comunidades políticas europeias e ao processo do qual surgiriam os Estados nacionais, ainda inseridos em uma concepção cristã do poder, do direito e do bem comum. Nesse sentido, a Europa não nasceu em Bruxelas: Bruxelas é apenas uma construção institucional recente dentro de uma história civilizatória muito mais antiga.

Marco Rubio no Partenon: qual Ocidente se pretende defender?

Essa contradição adquiriu uma dimensão particularmente reveladora no discurso pronunciado pelo secretário de Estado estadunidense Marco Rubio, em Atenas, em 7 de outubro de 2026, tendo como cenário simbólico a Acrópole e o Partenon. Rubio procurou estabelecer uma continuidade histórica entre a Grécia antiga, Roma, a cristandade europeia e os Estados Unidos, apresentados como herdeiros daquela tradição. Destacou a razão, a ciência, o heroísmo, a excelência e a ambição como atributos da grandeza ocidental, relacionando-os à necessidade de recuperar a supremacia estadunidense.

Entretanto, existe uma contradição fundamental entre a universalidade do legado greco-romano e cristão e sua utilização como justificativa para a supremacia de uma potência.

A Grécia não legou à humanidade apenas a exaltação da excelência e da competição, mas também, por intermédio de Sócrates, Platão e Aristóteles, a reflexão sobre a verdade, a justiça, a virtude e a natureza do Bem. Roma acrescentou a tradição jurídica, enquanto o cristianismo estabeleceu uma concepção da dignidade humana que transcende a nacionalidade, a riqueza e o poder.

Há, ademais, uma ironia histórica no cenário escolhido por Rubio. O Partenon foi vítima de um dos mais célebres episódios de espoliação cultural do imperialismo britânico. Entre 1801 e 1812, Lord Elgin, embaixador britânico junto ao Império Otomano, promoveu a remoção de parte substancial de suas esculturas, posteriormente incorporadas ao Museu Britânico, onde permanecem apesar das reivindicações gregas de restituição.

Tamanha admiração pela civilização grega que uma das maiores potências imperiais do Ocidente não se contentou em contemplar suas obras-primas: levou consigo as pedras e esculturas de seus monumentos mais sagrados.

Dois séculos depois, um representante do poder estadunidense retorna simbolicamente ao mesmo cenário para proclamar a grandeza ocidental. A verdadeira universalidade de uma civilização, entretanto, não se demonstra pela apropriação das realizações alheias, mas pelo respeito aos povos que as produziram.

Platão contra Trasímaco: a justiça não é o direito do mais forte

Essa contradição também merece ser examinada à luz da influência de Leo Strauss e de determinadas interpretações da filosofia clássica no pensamento neoconservador estadunidense. Alguns intelectuais neoconservadores que reivindicam Platão parecem esquecer a lição fundamental de A República, particularmente o diálogo em que Trasímaco sustenta que a justiça é a conveniência do mais forte. Em outras palavras, os governantes estabelecem as leis segundo seus interesses e pretendem que os governados reconheçam como justo aquilo que favorece os detentores do poder.

É precisamente essa identificação entre justiça e força que Sócrates questiona, argumentando que a autoridade deve orientar-se para o bem daqueles que estão sob sua responsabilidade. Não se trata de atribuir diretamente a Strauss a doutrina de Trasímaco, mas de reconhecer que certas interpretações políticas do legado clássico parecem aproximar-se mais da concepção do sofista do que da crítica socrático-platônica.

Essa contradição tornou-se particularmente evidente após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução da União Soviética, em 1991. Em lugar de aproveitar aquela oportunidade histórica para construir uma ordem cooperativa, prevaleceu em Washington a expectativa de uma prolongada supremacia unipolar, acompanhada pelas chamadas «guerras perpétuas».

A expressão mais inquietante dessa concepção ocorreu em abril de 2026, quando Donald Trump, durante o confronto com o Irã, ameaçou publicamente o desaparecimento de toda uma civilização. A ameaça contra a milenar civilização persa representa uma contradição moral com os próprios princípios universais proclamados pela Declaração de Independência estadunidense, fundamentados nas leis da natureza e do Criador.

A justiça não nasce do poder, nem a verdade se estabelece pela força. É o poder que deve submeter-se à verdade, à justiça e ao Bem Comum.

A verdadeira civilização ocidental e suas raízes cristãs

Diante dessas contradições, torna-se indispensável recuperar uma definição rigorosa da civilização ocidental.

A síntese entre a filosofia grega, o Direito romano e o cristianismo estabeleceu os fundamentos de uma concepção da sociedade na qual a autoridade política não constitui um fim em si mesma, mas deve orientar-se para a realização do Bem Comum.

Esse patrimônio encontrou uma expressão moderna particularmente importante na Doutrina Social da Igreja Católica, desde a Rerum Novarum, de Leão XIII, até os grandes documentos sociais dos séculos XX e XXI. A dignidade da pessoa humana, o Direito Natural, a solidariedade, a subsidiariedade e a destinação universal dos bens constituem princípios essenciais dessa tradição. Esses fundamentos adquirem hoje uma relevância extraordinária, precisamente porque a crise mundial não é apenas econômica, financeira, política ou militar. É, em última instância, uma crise espiritual, manifestada na perda dos princípios morais e transcendentes que deveriam orientar o exercício do poder e a organização da sociedade.

Nesse sentido, a Doutrina Social da Igreja oferece fundamentos extraordinariamente atuais para a construção de uma verdadeira ordem mundial multipolar.

Na encíclica Pacem in Terris (1963), João XXIII defendeu a necessidade de uma autoridade pública mundial capaz de promover o Bem Comum universal, ressaltando que sua legitimidade deveria decorrer do acordo entre as nações, jamais da imposição das grandes potências.

O Concílio Vaticano II, na constituição pastoral Gaudium et Spes (1965), aprofundou essa concepção, enquanto Paulo VI, na Populorum Progressio (1967), vinculou a construção de uma ordem jurídica universal ao desenvolvimento integral de todos os homens e de todos os povos.

Trata-se de uma concepção radicalmente distinta de qualquer governo mundial oligárquico ou imperial. A autoridade internacional legítima não deve suprimir a soberania das nações, mas assegurar condições para sua realização dentro de uma comunidade internacional cooperativa.

A herança ibérica e a identidade civilizatória da Ibero-América

Para nós, povos da Ibero-América, essa reflexão possui especial significado.

Somos herdeiros de uma tradição civilizatória que, a partir das grandes navegações portuguesas e castelhanas dos séculos XV e XVI, projetou o cristianismo para além da Europa, dando origem a novas sociedades formadas pelo encontro entre povos europeus, indígenas e africanos.

Esse processo não pode ser reduzido às categorias do colonialismo mercantil, embora tenha sido acompanhado por guerras de conquista, exploração e graves injustiças. A tradição ibérica também produziu uma extraordinária reflexão sobre os direitos naturais dos povos, particularmente por intermédio de Francisco de Vitoria e da Escola de Salamanca, que estabeleceram importantes limites morais à conquista e ao exercício do poder.

É necessário distinguir essa dimensão civilizatória dos sistemas de dominação mercantil associados à ascensão das potências anglo-holandesas, especialmente a partir dos séculos XVI e XVII, com suas companhias comerciais privilegiadas, monopólios, corso, pirataria e crescente concentração do poder financeiro.

Naturalmente, as próprias monarquias ibéricas também exerceram práticas coloniais coercitivas. A distinção essencial não reside em absolver uns e condenar outros, mas em reconhecer a diferença entre os princípios universais de uma civilização e os interesses particulares dos impérios que pretendem representá-la.

A Ibero-América, herdeira dessa tradição cristã e enriquecida por sua própria diversidade cultural, possui uma contribuição singular a oferecer à construção de uma nova ordem mundial.

Leão XIV na França: a Europa cristã continua viva

Em meio à crise existencial das atuais estruturas políticas europeias, a visita apostólica do papa Leão XIV à França, em setembro de 2026, oferece um sinal significativo da vitalidade das raízes cristãs do continente.

As manifestações multitudinárias de acolhimento ao Pontífice, especialmente a participação de jovens, contrastaram com a imagem de uma Europa cuja secularização teria eliminado definitivamente sua identidade religiosa.

O entusiasmo manifestado na França não demonstra, por si só, a existência de um renascimento cristão generalizado em toda a Europa. Entretanto, revela que a tradição religiosa permanece capaz de mobilizar importantes setores da sociedade, inclusive novas gerações. Esse fenômeno adquire especial significado em um continente marcado por crises econômicas, perda de confiança nas instituições e crescente insatisfação com as políticas governamentais, particularmente no terreno energético e militar.

A França constitui um exemplo expressivo dessa contradição. Ao mesmo tempo em que manifesta uma importante vitalidade religiosa, experimenta tensões sociais que, em determinadas circunstâncias, desembocam em confrontos violentos, inclusive com a mais que esperada participação dos Black Blocs. Não poucos observadores os consideram como grupos paramilitares adredemente financiados e treinados nos moldes das redes da Operação Gládio da OTAN, das décadas de 1970-80, especificamente para infiltrações de protestos populares legítimos e provocar tensões sociais e políticas, com o intuito de justificar fortes repressões dos governos dos países afetados. Os governos europeus deveriam reconhecer os riscos de uma crescente ruptura entre as instituições e as aspirações de suas populações. A incapacidade de responder às reivindicações sociais legítimas pode favorecer processos de radicalização, violência e repressão.

A renovação espiritual, por sua vez, pode contribuir para a reconstrução da coesão social, da solidariedade e da confiança, desde que não seja convertida em instrumento de confrontação política. A visita de Leão XIV recorda, sobretudo, que a Europa cristã não desapareceu com a secularização de suas instituições políticas.

A União Europeia não é a Europa, assim como o chamado «Ocidente coletivo» não é a civilização ocidental.

A grande encruzilhada: guerra global ou ordem mundial cooperativa

Não se trata, portanto, de uma discussão meramente acadêmica sobre o significado histórico do Ocidente.

A maneira pela qual as grandes potências compreendem sua própria identidade civilizatória e suas relações com os demais povos possui consequências diretas sobre a guerra, a paz e a organização da economia mundial. Se prevalecer a concepção segundo a qual a grandeza de uma civilização se mede por sua capacidade de dominar outras, a emergência de um mundo multipolar poderá converter-se em uma confrontação permanente entre centros rivais de poder. Nesse cenário, o declínio da hegemonia anglo-americana e a ascensão das potências euroasiáticas poderiam conduzir não a uma ordem internacional mais justa, mas a uma guerra global de consequências potencialmente devastadoras.

A alternativa consiste em superar o próprio princípio da hegemonia como fundamento das relações internacionais.

O Direito Natural e a Doutrina Social da Igreja oferecem princípios para conceber uma comunidade de nações plenamente soberanas, orientadas para o desenvolvimento integral de seus povos, dentro de uma ordem jurídica internacional legítima e cooperativa. A recuperação das raízes cristãs da civilização ocidental não deve representar a restauração de uma supremacia imperial, mas a reafirmação de sua contribuição universal à dignidade humana, à justiça e ao Bem Comum.

O mesmo princípio deve orientar as potências euroasiáticas: nenhuma civilização possui o direito de impor unilateralmente seus interesses ao conjunto da humanidade. A crise contemporânea é, em última instância, espiritual, porque envolve os próprios fundamentos morais que deveriam orientar o exercício do poder.

Superá-la exige recuperar a lição que Sócrates opôs a Trasímaco: a justiça não pode ser reduzida à conveniência do mais forte.

Entre a confrontação que pode conduzir a uma guerra global e o entendimento que permita estabelecer uma ordem mundial cooperativa, fundamentada no Direito Natural e na dignidade das nações, encontra-se a grande encruzilhada do nosso tempo.

E é nessa encruzilhada, não na disputa pela supremacia entre Ocidente e Oriente, que se joga o verdadeiro destino da civilização.

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