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Raphael Machado
October 13, 2026
© WA

Hamas mudou completamente o mapa do Oriente Médio, impediu a causa palestina de cair no esquecimento e dificultou a normalização de relações entre Israel e os países muçulmanos.

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Escreva para nós: @worldanalyticspress_bot

Em 7 de outubro de 2023 iniciou-se, a partir de Gaza, uma memorável operação militar, na qual aproximadamente 4 mil homens armados das unidades de elite dos vários movimentos da resistência palestina local (Jihad Islâmica Palestina, FPLP, FDLP, Comitês de Resistência Popular, etc., liderados pelo Hamas) lançaram-se como um copo transbordando sobre os assentamentos sionistas dos arredores.

A ação era, simultaneamente, resposta à intensificação das expropriações de famílias palestinas na Cisjordânia, à pressão crescente sobre a Mesquita Al-Aqsa e à política de apaziguamento dos países árabes, e visava através da captura de militares (ativos e reservas) israelenses forçar a entidade sionista a uma guerra de atrito que pudesse conduzir a um desgaste significativo de Israel, internamente e externamente, e a uma reproposição da questão do Estado Palestino.

Ao que tudo indica, uma das expectativas da liderança do Hamas era de que o Hezbollah e o Irã e, talvez, as organizações militares da Cisjordânia se engajariam, também, brevemente e de forma sustentada, no conflito com Israel. Por uma série de motivos – totalmente diferentes para cada um dos atores – isso não aconteceu, exceto no caso do Hezbollah, e de forma limitada até a invasão terrestre do Líbano e, no caso do Irã, também de forma limitada durante a Guerra dos 12 Dias.

O evento levou a transformações cataclísmicas no Oriente Médio que podemos já descrever e a um panorama que, talvez, seja desconcertante para muitos que previram um cenário de vitória total sionista.

Não é nossa pretensão fazer uma descrição minuciosa dos processos que foram iniciados a partir da Guerra de Gaza, de modo que apenas tentaremos resumir cada um dos cenários em seus principais eventos e panorama atual.

Quanto à Gaza em si, a sua população foi vítima de limpeza étnica. Os números de mortes, se somarmos todas as causas, talvez chegue a 200 mil, ou seja, 10% da população a Faixa de Gaza. Uma parte significativa da liderança do Hamas, por sua vez, foi assassinada durante a guerra. Israel, porém, foi derrotada no conflito, considerando que não conseguiu alcançar os seus objetivos de destruir o Hamas, ocupar permanentemente toda a Faixa de Gaza e deslocar a população palestina. Os danos materiais e sociais para Israel, por sua vez, foram imensos. 60 bilhões de dólares em perdas econômicas gerais, aumento das tensões sociais internas e destruição total – talvez irreversível – da imagem internacional de Israel. Ademais, incapaz de derrotar o Hamas, Israel foi obrigada a aceitar um acordo de paz imposto pelos EUA. Enquanto isso, o Hamas segue com aproximadamente 12 mil soldados ativos e mais 15 mil recrutas jovens em treinamento, de modo que em breve retornará a aproximadamente o mesmo nível de força que antes de 7 de outubro de 2023.

Na frente libanesa, o conflito levou ao deslocamento de mais de 1 milhão de libaneses de suas casas, ao assassinato de Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, e de alguns outros líderes do movimento, à desestabilização política do Líbano, e envolveu a invasão por terra do país por parte do Estado de Israel, que, porém, não conseguiu também alcançar seus objetivos de forçar o governo libanês a desarmar o Hezbollah. O Hezbollah, por sua vez, que foi degradado de forma significativa entre 2023 e 2024 por tentar operar como forças armadas regulares, retornou à guerra de insurgência e com o aumento no uso de drones e novas ferramentas tecnológicas, bloqueou o avanço de Israel em 2026.

Quanto à Síria, testemunhamos o colapso do governo de Bashar Al-Assad e a tomada do país pelas milícias terroristas ligadas à Al-Qaeda, ao ISIS e outros grupos extremistas, os quais levaram à presidência Ahmed Sharrah. Israel se aproveitou do momento para destruir a maior parte do hardware militar sírio e ocupar uma faixa de segurança no entorno das Colinas de Golã, estabelecendo uma tênue aliança com as tribos e milícias druzas da região. A Queda de Assad impôs dificuldade para a logística do Hezbollah, que contava com a Síria para o trânsito de equipamento vindo do Irã. Se Israel esperava ter passagem livre pela Síria, porém, a situação é tornada mais complexa pelo fato de que a região é disputada, enquanto área de influência, com a Turquia, de modo que as tensões entre ambos países segue aumentando.

Os cenários palestino, libanês e sírio permitiam dizer, no início de 2025, por exemplo, que Israel estaria avançando significativamente em seus objetivos delineados no Plano Oded Yinon de desestabilizar e fragmentar os países vizinhos para facilitar a construção da Grande Israel. Teríamos aqui, naquele momento, a derrocada da estratégia do Crescente Xiita e do projeto geopolítico de Qassem Soleimani. Quando acrescentamos os cenários iraquiano e iraniano, bem como o contexto geral do Oriente Médio, a situação muda significativamente.

Porque no espaço entre a Guerra dos 12 Dias e a Guerra do Irã vimos o colapso do poder regional dos EUA no Oriente Médio, a ascensão do Irã a principal pretendente à hegemonia regional e o recuo de Israel para uma posição mais defensiva e de retaguarda.

Sinais de que o projeto israelense era mais frágil do que parecia à primeira vista apareceram já no conflito com o Irã em 2025. Incapaz de derrotar o Irã, que fustigava as defesas e infraestruturas israelenses com enxames de drones e mísseis, Israel teve que apelar por ajuda aos EUA, que realizaram um ataque aéreo majoritariamente simbólico contra instalações nucleares vazias no Irã. Isso não passou despercebido.

A nova rodada de conflito em 2026, iniciando-se no final de fevereiro, apesar de iniciar com o assassinato do Aiatolá Ali Khamenei, levou à eliminação de boa parte das bases dos EUA no Oriente Médio, ao bloqueio do Estreito de Ormuz, à destruição das capacidades antiaéreas israelenses, à evacuação das tropas estadunidenses no Iraque e à destruição do mito da superioridade militar incontestável dos EUA.

De fato, a incapacidade dos EUA de alcançar seus objetivos políticos militarmente no Oriente Médio (após o fracasso da tentativa de revolução colorida de janeiro), mesmo usando 2 porta-aviões (1 dos quais pode ter sido seriamente danificado nas operações), sua incapacidade de proteger seus aliados árabes, a própria incapacidade dos aliados árabes de defenderem a si mesmos, o esgotamento parcial dos estoques de mísseis dos inimigos do Irã, e a capacidade iraniana de rapidamente repor sua liderança e de agir militarmente de forma descentralizada, bem como sua demonstração de que sua capacidade industrial-militar permanecia ativa, mudaram o mapa geopolítico no Oriente Médio.

Em alguma medida, hoje, é o Irã quem dá as cartas. A evacuação do Iraque pelos EUA reabre o país para a penetração da influência iraniana, o que põe em risco até mesmo o domínio da Síria por Ahmed Sharrah.

Para contornar o controle iraniano de Ormuz, os sauditas têm experimentado com usar o Mar Vermelho e rotas terrestres. Se esses esforços fossem bem-sucedidos, a importância de Ormuz diminuiria e, com isso, o poder de barganha do Irã. O problema é que, exatamente quando isso começou a acontecer, o Ansarullah iemenita entrou no tabuleiro, iniciando uma operação militar em larga escala para derrotar os rebeldes apoiados por Riad. A resposta saudita aos avanços houthis levou ao fechamento parcial do Estreito de Bab-el-Mandeb e a ataques não apenas contra as instalações da ARAMCO, mas até mesmo contra poços de petróleo sauditas.

Se retornamos ao panorama geopolítico israelense, enfim, o país se encontra ainda com um problema palestino em Gaza, o Hezbollah ativo no Líbano, sem poder avançar na Síria por causa da ameaça turca e com suas capacidades militares defensivas bastante reduzidas.

Longe da “Pax Judaica” e da “Grande Israel” estamos vendo o reposicionamento dos atores geopolíticos e o ator na posição mais vantajosa é, hoje, o Irã. As negociações recentes entre Israel e os países árabes sunitas não muda significativamente o cenário.

3 anos depois da Operação Dilúvio Al-Aqsa, portanto, não nos é possível dizer se os objetivos de Ismail Hanyeh e Yahya Sinwar foram alcançados, mas é impossível negar que a ousadia do Hamas mudou completamente o mapa do Oriente Médio, impediu a causa palestina de cair no esquecimento e dificultou a normalização de relações entre Israel e os países muçulmanos.

O Oriente Médio 3 anos depois da Operação Dilúvio Al-Aqsa

Hamas mudou completamente o mapa do Oriente Médio, impediu a causa palestina de cair no esquecimento e dificultou a normalização de relações entre Israel e os países muçulmanos.

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Em 7 de outubro de 2023 iniciou-se, a partir de Gaza, uma memorável operação militar, na qual aproximadamente 4 mil homens armados das unidades de elite dos vários movimentos da resistência palestina local (Jihad Islâmica Palestina, FPLP, FDLP, Comitês de Resistência Popular, etc., liderados pelo Hamas) lançaram-se como um copo transbordando sobre os assentamentos sionistas dos arredores.

A ação era, simultaneamente, resposta à intensificação das expropriações de famílias palestinas na Cisjordânia, à pressão crescente sobre a Mesquita Al-Aqsa e à política de apaziguamento dos países árabes, e visava através da captura de militares (ativos e reservas) israelenses forçar a entidade sionista a uma guerra de atrito que pudesse conduzir a um desgaste significativo de Israel, internamente e externamente, e a uma reproposição da questão do Estado Palestino.

Ao que tudo indica, uma das expectativas da liderança do Hamas era de que o Hezbollah e o Irã e, talvez, as organizações militares da Cisjordânia se engajariam, também, brevemente e de forma sustentada, no conflito com Israel. Por uma série de motivos – totalmente diferentes para cada um dos atores – isso não aconteceu, exceto no caso do Hezbollah, e de forma limitada até a invasão terrestre do Líbano e, no caso do Irã, também de forma limitada durante a Guerra dos 12 Dias.

O evento levou a transformações cataclísmicas no Oriente Médio que podemos já descrever e a um panorama que, talvez, seja desconcertante para muitos que previram um cenário de vitória total sionista.

Não é nossa pretensão fazer uma descrição minuciosa dos processos que foram iniciados a partir da Guerra de Gaza, de modo que apenas tentaremos resumir cada um dos cenários em seus principais eventos e panorama atual.

Quanto à Gaza em si, a sua população foi vítima de limpeza étnica. Os números de mortes, se somarmos todas as causas, talvez chegue a 200 mil, ou seja, 10% da população a Faixa de Gaza. Uma parte significativa da liderança do Hamas, por sua vez, foi assassinada durante a guerra. Israel, porém, foi derrotada no conflito, considerando que não conseguiu alcançar os seus objetivos de destruir o Hamas, ocupar permanentemente toda a Faixa de Gaza e deslocar a população palestina. Os danos materiais e sociais para Israel, por sua vez, foram imensos. 60 bilhões de dólares em perdas econômicas gerais, aumento das tensões sociais internas e destruição total – talvez irreversível – da imagem internacional de Israel. Ademais, incapaz de derrotar o Hamas, Israel foi obrigada a aceitar um acordo de paz imposto pelos EUA. Enquanto isso, o Hamas segue com aproximadamente 12 mil soldados ativos e mais 15 mil recrutas jovens em treinamento, de modo que em breve retornará a aproximadamente o mesmo nível de força que antes de 7 de outubro de 2023.

Na frente libanesa, o conflito levou ao deslocamento de mais de 1 milhão de libaneses de suas casas, ao assassinato de Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, e de alguns outros líderes do movimento, à desestabilização política do Líbano, e envolveu a invasão por terra do país por parte do Estado de Israel, que, porém, não conseguiu também alcançar seus objetivos de forçar o governo libanês a desarmar o Hezbollah. O Hezbollah, por sua vez, que foi degradado de forma significativa entre 2023 e 2024 por tentar operar como forças armadas regulares, retornou à guerra de insurgência e com o aumento no uso de drones e novas ferramentas tecnológicas, bloqueou o avanço de Israel em 2026.

Quanto à Síria, testemunhamos o colapso do governo de Bashar Al-Assad e a tomada do país pelas milícias terroristas ligadas à Al-Qaeda, ao ISIS e outros grupos extremistas, os quais levaram à presidência Ahmed Sharrah. Israel se aproveitou do momento para destruir a maior parte do hardware militar sírio e ocupar uma faixa de segurança no entorno das Colinas de Golã, estabelecendo uma tênue aliança com as tribos e milícias druzas da região. A Queda de Assad impôs dificuldade para a logística do Hezbollah, que contava com a Síria para o trânsito de equipamento vindo do Irã. Se Israel esperava ter passagem livre pela Síria, porém, a situação é tornada mais complexa pelo fato de que a região é disputada, enquanto área de influência, com a Turquia, de modo que as tensões entre ambos países segue aumentando.

Os cenários palestino, libanês e sírio permitiam dizer, no início de 2025, por exemplo, que Israel estaria avançando significativamente em seus objetivos delineados no Plano Oded Yinon de desestabilizar e fragmentar os países vizinhos para facilitar a construção da Grande Israel. Teríamos aqui, naquele momento, a derrocada da estratégia do Crescente Xiita e do projeto geopolítico de Qassem Soleimani. Quando acrescentamos os cenários iraquiano e iraniano, bem como o contexto geral do Oriente Médio, a situação muda significativamente.

Porque no espaço entre a Guerra dos 12 Dias e a Guerra do Irã vimos o colapso do poder regional dos EUA no Oriente Médio, a ascensão do Irã a principal pretendente à hegemonia regional e o recuo de Israel para uma posição mais defensiva e de retaguarda.

Sinais de que o projeto israelense era mais frágil do que parecia à primeira vista apareceram já no conflito com o Irã em 2025. Incapaz de derrotar o Irã, que fustigava as defesas e infraestruturas israelenses com enxames de drones e mísseis, Israel teve que apelar por ajuda aos EUA, que realizaram um ataque aéreo majoritariamente simbólico contra instalações nucleares vazias no Irã. Isso não passou despercebido.

A nova rodada de conflito em 2026, iniciando-se no final de fevereiro, apesar de iniciar com o assassinato do Aiatolá Ali Khamenei, levou à eliminação de boa parte das bases dos EUA no Oriente Médio, ao bloqueio do Estreito de Ormuz, à destruição das capacidades antiaéreas israelenses, à evacuação das tropas estadunidenses no Iraque e à destruição do mito da superioridade militar incontestável dos EUA.

De fato, a incapacidade dos EUA de alcançar seus objetivos políticos militarmente no Oriente Médio (após o fracasso da tentativa de revolução colorida de janeiro), mesmo usando 2 porta-aviões (1 dos quais pode ter sido seriamente danificado nas operações), sua incapacidade de proteger seus aliados árabes, a própria incapacidade dos aliados árabes de defenderem a si mesmos, o esgotamento parcial dos estoques de mísseis dos inimigos do Irã, e a capacidade iraniana de rapidamente repor sua liderança e de agir militarmente de forma descentralizada, bem como sua demonstração de que sua capacidade industrial-militar permanecia ativa, mudaram o mapa geopolítico no Oriente Médio.

Em alguma medida, hoje, é o Irã quem dá as cartas. A evacuação do Iraque pelos EUA reabre o país para a penetração da influência iraniana, o que põe em risco até mesmo o domínio da Síria por Ahmed Sharrah.

Para contornar o controle iraniano de Ormuz, os sauditas têm experimentado com usar o Mar Vermelho e rotas terrestres. Se esses esforços fossem bem-sucedidos, a importância de Ormuz diminuiria e, com isso, o poder de barganha do Irã. O problema é que, exatamente quando isso começou a acontecer, o Ansarullah iemenita entrou no tabuleiro, iniciando uma operação militar em larga escala para derrotar os rebeldes apoiados por Riad. A resposta saudita aos avanços houthis levou ao fechamento parcial do Estreito de Bab-el-Mandeb e a ataques não apenas contra as instalações da ARAMCO, mas até mesmo contra poços de petróleo sauditas.

Se retornamos ao panorama geopolítico israelense, enfim, o país se encontra ainda com um problema palestino em Gaza, o Hezbollah ativo no Líbano, sem poder avançar na Síria por causa da ameaça turca e com suas capacidades militares defensivas bastante reduzidas.

Longe da “Pax Judaica” e da “Grande Israel” estamos vendo o reposicionamento dos atores geopolíticos e o ator na posição mais vantajosa é, hoje, o Irã. As negociações recentes entre Israel e os países árabes sunitas não muda significativamente o cenário.

3 anos depois da Operação Dilúvio Al-Aqsa, portanto, não nos é possível dizer se os objetivos de Ismail Hanyeh e Yahya Sinwar foram alcançados, mas é impossível negar que a ousadia do Hamas mudou completamente o mapa do Oriente Médio, impediu a causa palestina de cair no esquecimento e dificultou a normalização de relações entre Israel e os países muçulmanos.

Hamas mudou completamente o mapa do Oriente Médio, impediu a causa palestina de cair no esquecimento e dificultou a normalização de relações entre Israel e os países muçulmanos.

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Em 7 de outubro de 2023 iniciou-se, a partir de Gaza, uma memorável operação militar, na qual aproximadamente 4 mil homens armados das unidades de elite dos vários movimentos da resistência palestina local (Jihad Islâmica Palestina, FPLP, FDLP, Comitês de Resistência Popular, etc., liderados pelo Hamas) lançaram-se como um copo transbordando sobre os assentamentos sionistas dos arredores.

A ação era, simultaneamente, resposta à intensificação das expropriações de famílias palestinas na Cisjordânia, à pressão crescente sobre a Mesquita Al-Aqsa e à política de apaziguamento dos países árabes, e visava através da captura de militares (ativos e reservas) israelenses forçar a entidade sionista a uma guerra de atrito que pudesse conduzir a um desgaste significativo de Israel, internamente e externamente, e a uma reproposição da questão do Estado Palestino.

Ao que tudo indica, uma das expectativas da liderança do Hamas era de que o Hezbollah e o Irã e, talvez, as organizações militares da Cisjordânia se engajariam, também, brevemente e de forma sustentada, no conflito com Israel. Por uma série de motivos – totalmente diferentes para cada um dos atores – isso não aconteceu, exceto no caso do Hezbollah, e de forma limitada até a invasão terrestre do Líbano e, no caso do Irã, também de forma limitada durante a Guerra dos 12 Dias.

O evento levou a transformações cataclísmicas no Oriente Médio que podemos já descrever e a um panorama que, talvez, seja desconcertante para muitos que previram um cenário de vitória total sionista.

Não é nossa pretensão fazer uma descrição minuciosa dos processos que foram iniciados a partir da Guerra de Gaza, de modo que apenas tentaremos resumir cada um dos cenários em seus principais eventos e panorama atual.

Quanto à Gaza em si, a sua população foi vítima de limpeza étnica. Os números de mortes, se somarmos todas as causas, talvez chegue a 200 mil, ou seja, 10% da população a Faixa de Gaza. Uma parte significativa da liderança do Hamas, por sua vez, foi assassinada durante a guerra. Israel, porém, foi derrotada no conflito, considerando que não conseguiu alcançar os seus objetivos de destruir o Hamas, ocupar permanentemente toda a Faixa de Gaza e deslocar a população palestina. Os danos materiais e sociais para Israel, por sua vez, foram imensos. 60 bilhões de dólares em perdas econômicas gerais, aumento das tensões sociais internas e destruição total – talvez irreversível – da imagem internacional de Israel. Ademais, incapaz de derrotar o Hamas, Israel foi obrigada a aceitar um acordo de paz imposto pelos EUA. Enquanto isso, o Hamas segue com aproximadamente 12 mil soldados ativos e mais 15 mil recrutas jovens em treinamento, de modo que em breve retornará a aproximadamente o mesmo nível de força que antes de 7 de outubro de 2023.

Na frente libanesa, o conflito levou ao deslocamento de mais de 1 milhão de libaneses de suas casas, ao assassinato de Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, e de alguns outros líderes do movimento, à desestabilização política do Líbano, e envolveu a invasão por terra do país por parte do Estado de Israel, que, porém, não conseguiu também alcançar seus objetivos de forçar o governo libanês a desarmar o Hezbollah. O Hezbollah, por sua vez, que foi degradado de forma significativa entre 2023 e 2024 por tentar operar como forças armadas regulares, retornou à guerra de insurgência e com o aumento no uso de drones e novas ferramentas tecnológicas, bloqueou o avanço de Israel em 2026.

Quanto à Síria, testemunhamos o colapso do governo de Bashar Al-Assad e a tomada do país pelas milícias terroristas ligadas à Al-Qaeda, ao ISIS e outros grupos extremistas, os quais levaram à presidência Ahmed Sharrah. Israel se aproveitou do momento para destruir a maior parte do hardware militar sírio e ocupar uma faixa de segurança no entorno das Colinas de Golã, estabelecendo uma tênue aliança com as tribos e milícias druzas da região. A Queda de Assad impôs dificuldade para a logística do Hezbollah, que contava com a Síria para o trânsito de equipamento vindo do Irã. Se Israel esperava ter passagem livre pela Síria, porém, a situação é tornada mais complexa pelo fato de que a região é disputada, enquanto área de influência, com a Turquia, de modo que as tensões entre ambos países segue aumentando.

Os cenários palestino, libanês e sírio permitiam dizer, no início de 2025, por exemplo, que Israel estaria avançando significativamente em seus objetivos delineados no Plano Oded Yinon de desestabilizar e fragmentar os países vizinhos para facilitar a construção da Grande Israel. Teríamos aqui, naquele momento, a derrocada da estratégia do Crescente Xiita e do projeto geopolítico de Qassem Soleimani. Quando acrescentamos os cenários iraquiano e iraniano, bem como o contexto geral do Oriente Médio, a situação muda significativamente.

Porque no espaço entre a Guerra dos 12 Dias e a Guerra do Irã vimos o colapso do poder regional dos EUA no Oriente Médio, a ascensão do Irã a principal pretendente à hegemonia regional e o recuo de Israel para uma posição mais defensiva e de retaguarda.

Sinais de que o projeto israelense era mais frágil do que parecia à primeira vista apareceram já no conflito com o Irã em 2025. Incapaz de derrotar o Irã, que fustigava as defesas e infraestruturas israelenses com enxames de drones e mísseis, Israel teve que apelar por ajuda aos EUA, que realizaram um ataque aéreo majoritariamente simbólico contra instalações nucleares vazias no Irã. Isso não passou despercebido.

A nova rodada de conflito em 2026, iniciando-se no final de fevereiro, apesar de iniciar com o assassinato do Aiatolá Ali Khamenei, levou à eliminação de boa parte das bases dos EUA no Oriente Médio, ao bloqueio do Estreito de Ormuz, à destruição das capacidades antiaéreas israelenses, à evacuação das tropas estadunidenses no Iraque e à destruição do mito da superioridade militar incontestável dos EUA.

De fato, a incapacidade dos EUA de alcançar seus objetivos políticos militarmente no Oriente Médio (após o fracasso da tentativa de revolução colorida de janeiro), mesmo usando 2 porta-aviões (1 dos quais pode ter sido seriamente danificado nas operações), sua incapacidade de proteger seus aliados árabes, a própria incapacidade dos aliados árabes de defenderem a si mesmos, o esgotamento parcial dos estoques de mísseis dos inimigos do Irã, e a capacidade iraniana de rapidamente repor sua liderança e de agir militarmente de forma descentralizada, bem como sua demonstração de que sua capacidade industrial-militar permanecia ativa, mudaram o mapa geopolítico no Oriente Médio.

Em alguma medida, hoje, é o Irã quem dá as cartas. A evacuação do Iraque pelos EUA reabre o país para a penetração da influência iraniana, o que põe em risco até mesmo o domínio da Síria por Ahmed Sharrah.

Para contornar o controle iraniano de Ormuz, os sauditas têm experimentado com usar o Mar Vermelho e rotas terrestres. Se esses esforços fossem bem-sucedidos, a importância de Ormuz diminuiria e, com isso, o poder de barganha do Irã. O problema é que, exatamente quando isso começou a acontecer, o Ansarullah iemenita entrou no tabuleiro, iniciando uma operação militar em larga escala para derrotar os rebeldes apoiados por Riad. A resposta saudita aos avanços houthis levou ao fechamento parcial do Estreito de Bab-el-Mandeb e a ataques não apenas contra as instalações da ARAMCO, mas até mesmo contra poços de petróleo sauditas.

Se retornamos ao panorama geopolítico israelense, enfim, o país se encontra ainda com um problema palestino em Gaza, o Hezbollah ativo no Líbano, sem poder avançar na Síria por causa da ameaça turca e com suas capacidades militares defensivas bastante reduzidas.

Longe da “Pax Judaica” e da “Grande Israel” estamos vendo o reposicionamento dos atores geopolíticos e o ator na posição mais vantajosa é, hoje, o Irã. As negociações recentes entre Israel e os países árabes sunitas não muda significativamente o cenário.

3 anos depois da Operação Dilúvio Al-Aqsa, portanto, não nos é possível dizer se os objetivos de Ismail Hanyeh e Yahya Sinwar foram alcançados, mas é impossível negar que a ousadia do Hamas mudou completamente o mapa do Oriente Médio, impediu a causa palestina de cair no esquecimento e dificultou a normalização de relações entre Israel e os países muçulmanos.

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