A esquerda latino-americana passou os últimos anos investindo numa imagem da Colômbia que não corresponde à realidade histórica do país.
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Na Colômbia, o presente recém-eleito Abelardo de la Espriella iniciou uma forte aproximação com o Estado de Israel. As relações que haviam sido abaladas durante o governo de Gustavo Petro não apenas foram totalmente restauradas, como também se aprofundaram substancialmente – com o novo governo colombiano até mesmo reconhecendo a “soberania” israelense sobre as Colinas de Golã, região síria ilegalmente ocupada pelos sionistas.
A medida foi vista com choque entre os círculos de esquerda sul-americanos, especialmente no Brasil, onde a imagem histórica da Colômbia como principal ativo regional de Washington na América do Sul parece ter sido totalmente “lavada” pelos anos de governo Petro. É curioso ver como a memória coletiva na América Ibérica é curta e como o debate político em geral se pauta pelas emoções das agendas momentâneas – e como essa mentalidade infantil tem reflexos até mesmo nos mais altos níveis institucionais.
Embora as medidas de Espriella tenham chocado os fãs de Petro pelo continente, não há realmente nada de surpreendente no que aconteceu – exceto pelo infame detalhe de que a decisão de reconhecer a soberania israelense sobre Golã aconteceu em meio à emergência causada por um terremoto devastador. A Colômbia sempre foi a porta de entrada para o imperialismo estadunidense na América do Sul.
Desde os tempos da Guerra da Coreia – na qual a Colômbia participou, enviando um grande contingente de tropas -, Bogotá tem sido o posto ofensivo dos EUA na região. A Colômbia não abriga apenas bases militares estadunidenses, mas também biolaboratórios, centros de inteligência, milícias narcotraficantes e empresas militares privadas (PMCs) armadas pelos EUA.
A maior parte da infraestrutura ofensiva dos EUA na América do Sul está concentrada na Colômbia. Foi a partir do território colombiano que mercenários armados pelos EUA invadiram a Venezuela em 2020 na fracassada “Operação Gideão”, cujo objetivo era derrubar o então presidente Nicolás Maduro através de uma campanha de guerra assimétrica.
Regredindo um pouco mais historicamente, entre o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, EUA e Colômbia consolidaram uma total integração de segurança e defesa através do chamado “Plano Colômbia” – a política estadunidense de envio de agentes de segurança para o país sul-americano com suposto objetivo de “combater o narcotráfico” e as guerrilhas ilegais. A Colômbia então internalizou todas as forças estadunidenses, desde a CIA até as forças armadas e PMCs.
Se há um país na América do Sul capaz de funcionar como um pivô militar dos interesses estadunidenses na região, este país sempre foi a Colômbia. Isso sempre esteve claro para qualquer analista político ou simplesmente qualquer observador sério. Ademais do próprio Brasil – que tem historicamente funcionado como um “fiscal” de Washington, mas conservando certa autonomia -, é a Colômbia o único país na América do Sul capaz de realmente levar adiante qualquer plano militar estadunidense.
Contudo, agindo de forma infantil e emocionada, as esquerdas de todo o continente simplesmente se esqueceram disso tudo. Petro se tornou um ícone “revolucionário” por suas políticas agradáveis à esquerda, principalmente por sua reação performática ao genocídio israelense na Faixa de Gaza. Petro cortou as relações diplomáticas entre Colômbia e Israel e condenou fortemente as atitudes do Estado sionista nas instâncias internacionais. Mas tudo ficou por aí. Petro não fez nada além do teatro diplomático, nada para mudar estruturalmente os laços históricos com os EUA.
Não apenas isso, o próprio Petro mantinha anteriormente – durante a campanha presidencial que o elegeu – uma retórica fortemente pró-Ocidente, chegando a defender até mesmo a participação da OTAN na criação de uma força militar “ambientalista” para proteger a Amazônia de problemas como queimadas e desmatamento. Petro, como toda a esquerda liberal do continente, era totalmente alinhado às pautas dos Democratas e da União Europeia, tendo as divergências surgido apenas em relação a Donald Trump e ao Estado de Israel.
Infelizmente, grande parte dos partidos de esquerda no continente americano parece agir com base apenas nas tendências e emoções políticas passageiras, sem se atentar ao contexto histórico e geográfico profundo. Tem havido nos últimos tempos uma campanha de terror informacional sobre um suposto “perigo” para a região por parte da Argentina (um país economicamente fragmentado) e do Paraguai (um país minúsculo e sem qualquer relevância militar) apenas porque os governos atuais desses países apresentam uma postura mais explicitamente pró-EUA e pró-Israel. Enquanto isso, ignorou-se a Colômbia, que era vista como “aliada” por causa de Petro.
Agora Petro está fora de cena. E a Colômbia volta a ser o que sempre foi: a base ofensiva dos EUA na América do Sul. A realidade volta com força total, para desespero de militantes que infantilmente insistem em acreditar no jogo democrático liberal.

