Português
Bruna Frascolla
April 27, 2026
© Photo: Public domain

O cenário que se desenha é o da dissolução das esquerdas ocidentais num progressismo woke inventado pelo capital financeiro.

   

Escreva para nós: @worldanalyticspress_bot

Nos dias 17 e 18 de abril, Barcelona sediou a primeira Cúpula ou Mobilização Progressista Global, em tese liderada por Pedro Sánchez da Espanha e Lula do Brasil, feita porém sob os auspícios da Open Society Foundation.

Não há muita informação disponível sobre o financiamento. No website oficial, lemos somente que “este website recebe apoio financeiro do Parlamento Europeu”, não sendo possível concluir daí que se trate da única fonte de financiamento. Chama a atenção, porém, que em meio aos chefes de Estado, burocratas e políticos, consta como palestrantes Pedro Abramovay na condição de Vice-Presidente da Open Society. Alex Soros (filho e herdeiro do nonagenário George) foi prestigiar o evento. Sem papas na língua, o Jewish Insider referiu-se ao encontro como “Cúpula de Alex Soros”. Ainda assim, a OSF não foi a única grande ONG a marcar presença, pois a Bill & Melinda Gates Foundation também tinha um representante entre os palestrantes.

Os nomes das salas ajudam a ver as preferências ideológicas da organização: Salvador Allende, Angela Davis, Nelson Mandela, Dolores Huerta, Anna Lindh, Hannah Arendt, Frida Kahlo, Edward Said e Ernest Lluch. Com certeza alguém na comissão organizadora decidiu colocar um número exagerado de mulheres e cuidou para que houvesse somente um “homem branco cis hétero” (o último dos citados, que é espanhol – Allende não conta porque os iberoamericanos são “latinx” na cabeça desse pessoal). Dentre todos esses nomes, só um tem relação histórica com o comunismo: Angela Davis. No entanto, nos dias de hoje ela é bem mais reconhecida como a entidade bi-oprimida mulher-negra do que comunista. E, até mesmo nos seus dias de comunista, o separatismo racial dos Panteras Negras era de um espírito contrário ao ideal marxista de fraternidade entre os povos do mundo. Não à toa, o anarcocapitalista Murray Rothbard, em sua fase esquerdista, posicionava-se em favor do separatismo negro e do separatismo branco, corretamente entendidos como coerentes entre si.

O que salta aos olhos no evento que pretende reunir a esquerda global são as ausências de representantes de Cuba, Venezuela e Bolívia entre os palestrantes. Constavam Petro e Yamandu Orsi, presidente do Uruguai. Sheinbaum até compareceu, mas não palestrou. Dentre os políticos da esquerda sul-americana, constavam como palestrantes chilenos, argentinos e mexicanos. Vale notar que o primeiro ministro de Kosovo – um país inventado pela OTAN – constava como palestrante.

***

Neste século, a organização ideológica de esquerda mais icônica na Ibero-América era o Foro de São Paulo. De meados da década de 2000 a meados da década de 2010, as lideranças evidentes da esquerda latino-americana eram Fidel Castro (1926 – 2016), Hugo Chávez (1954 – 2013), Evo Morales e Lula – este último, uma figura um tanto dúbia, que transitava entre a amizade de Caracas e editoriais favoráveis da Economist.

Obviamente, a estrela dentre esses líderes era Fidel Castro, que tinha um alinhamento histórico com Moscou e era, por assim dizer, o farol latino-americano das esquerdas. O próprio Foro de São Paulo surgiu no começo da década de 1990 com a finalidade de se reorganizar diante do fim da União Soviética. Assim, mesmo que a Rússia não estivesse mais tão presente na esquerda ibero-americana como antes, a URSS ainda era o farol da sua identidade, um sol cuja luz Cuba refletia tal como a lua.

Nos dias de hoje, a superestimação da importância de Moscou para a esquerda global faz com que se esqueçam as grandes ondas de influência norte-americana. A primeira deu-se a partir de 1968, com a psicodelia e a revolução sexual; a segunda na década de 2010, com o wokismo. Trata-se, no frigir dos ovos, de uma esquerda liberal e anticomunista que acabou influenciando os comunistas do mundo Ocidental, que passaram da guerrilha à tanga de crochê.

Como o feminismo e o combate ao racismo eram também bandeiras soviéticas, gozava de certa plausibilidade a expectativa de compatibilizar ambos os influxos. Não obstante, o resultado final foi a substituição de qualquer reivindicação de melhoria dos padrões de vida da classe trabalhadora pela implementação de políticas DEI, criadas no governo Nixon, que tinham o fito de enfraquecer os trabalhadores por meio da divisão racial.

Historicamente, a classe trabalhadora nos EUA sempre teve dificuldade de se unificar por causa das rivalidades entre grupos populacionais: os WASP odiando os imigrantes irlandeses, depois os anglófonos odiando os imigrantes italianos, e assim sucessivamente. As políticas identitárias instrumentalizam o imigrante e a mulher para combater o conjunto ao qual pertencia a maioria dos trabalhadores do primeiro mundo: o homem branco pai de família. Se do lado racialista esse grupo era atacado por ser branco, do lado da revolução sexual é atacado por achar que tem o direito de ganhar o suficiente para sustentar uma família, em vez de ser um consumidor drogado e atomizado.

Na América do Sul, podemos dizer com alguma tranquilidade que há países cuja esquerda não tem muita afinidade com o Foro de São Paulo e é sobretudo woke. Ao contrário de Cuba, Venezuela e Bolívia, esses países estão entre aqueles cujos políticos compareceram entre os palestrantes em Barcelona: Chile, Uruguai e Colômbia. Michelle Bachelet, do Chile, não se bicava com Chávez; o proto-woke Mujica criticava-lhe o socialismo; e a Colômbia, um quintal dos EUA, só elege presidentes liberais (após uma porção de direitistas, veio Petro, que tinha muitas tensões com Maduro; os colombianos próximos do Foro de São Paulo eram os membros das FARC, parte do quais compuseram um partido nanico com péssimo desempenho eleitoral).

***

Os comunistas russos e chineses pegaram imensos países feudais e transformaram numa potência moderna. No Irã, os revolucionários xiitas cuidaram da soberania do país e hoje exibem uma grande autonomia científica e tecnológica que os capacita a enfrentar os Estados Unidos. Infelizmente, na América do Sul, toda a esquerda posterior à Guerra Fria optou por parar de se desenvolver e resolveu governar só distribuindo renda para ganhar as próximas eleições. Além disso, tornou-se muito vulnerável à retórica americana da democracia.

A Venezuela chavista exportava petróleo e importava todo o resto – até comida. O Brasil, que no período militar se desenvolveu muito e desde então contava com uma gigantesca estrutura de pesquisa universitária, preferiu tratar essa estrutura como um mecanismo de distribuição de diplomas, achando que isso era justiça social. O Brasil e a Argentina são potências da agricultura mundial – mas, sendo uma agricultura que requer pouca mão de obra, não geram empregos suficientes para fazer o grosso de sua população prosperar.

Essas mazelas da América do Sul não são de todo estranhas aos EUA e à Europa, já que ambas, para agradar o capital financeiro, exportaram os seus empregos industriais para a China. No caso da Europa, ainda há a questão energética (especialmente com a agenda anti-nuclear e anti-Rússia) a solapar a indústria. Podemos dizer então que a esquerda sul-americana concorda com a burocracia da UE e com a esquerda dos EUA na medida em que adota como “progressista” uma agenda de gestão da miséria. Todos veem um bolo pequeno a ser dividido e resolvem fazer “justiça social” privilegiando travestis insolentes ou imigrantes estupradores. Assim, essas elites burocráticas subservientes ao capital especulativo têm esperanças de que o povo se dedique a odiar somente travestis e imigrantes, em vez alçar os olhos para as causas.

O cenário que se desenha é o da dissolução das esquerdas ocidentais num progressismo woke inventado pelo capital financeiro que condena o “populismo” e a extinção da esquerda ibero-americana que via no líder de massas as esperanças de derrotar o imperialismo.

Em Barcelona, esquerda troca o ícone de Fidel Castro pela «democracia» da OTAN

O cenário que se desenha é o da dissolução das esquerdas ocidentais num progressismo woke inventado pelo capital financeiro.

 ,  

Escreva para nós: @worldanalyticspress_bot

Nos dias 17 e 18 de abril, Barcelona sediou a primeira Cúpula ou Mobilização Progressista Global, em tese liderada por Pedro Sánchez da Espanha e Lula do Brasil, feita porém sob os auspícios da Open Society Foundation.

Não há muita informação disponível sobre o financiamento. No website oficial, lemos somente que “este website recebe apoio financeiro do Parlamento Europeu”, não sendo possível concluir daí que se trate da única fonte de financiamento. Chama a atenção, porém, que em meio aos chefes de Estado, burocratas e políticos, consta como palestrantes Pedro Abramovay na condição de Vice-Presidente da Open Society. Alex Soros (filho e herdeiro do nonagenário George) foi prestigiar o evento. Sem papas na língua, o Jewish Insider referiu-se ao encontro como “Cúpula de Alex Soros”. Ainda assim, a OSF não foi a única grande ONG a marcar presença, pois a Bill & Melinda Gates Foundation também tinha um representante entre os palestrantes.

Os nomes das salas ajudam a ver as preferências ideológicas da organização: Salvador Allende, Angela Davis, Nelson Mandela, Dolores Huerta, Anna Lindh, Hannah Arendt, Frida Kahlo, Edward Said e Ernest Lluch. Com certeza alguém na comissão organizadora decidiu colocar um número exagerado de mulheres e cuidou para que houvesse somente um “homem branco cis hétero” (o último dos citados, que é espanhol – Allende não conta porque os iberoamericanos são “latinx” na cabeça desse pessoal). Dentre todos esses nomes, só um tem relação histórica com o comunismo: Angela Davis. No entanto, nos dias de hoje ela é bem mais reconhecida como a entidade bi-oprimida mulher-negra do que comunista. E, até mesmo nos seus dias de comunista, o separatismo racial dos Panteras Negras era de um espírito contrário ao ideal marxista de fraternidade entre os povos do mundo. Não à toa, o anarcocapitalista Murray Rothbard, em sua fase esquerdista, posicionava-se em favor do separatismo negro e do separatismo branco, corretamente entendidos como coerentes entre si.

O que salta aos olhos no evento que pretende reunir a esquerda global são as ausências de representantes de Cuba, Venezuela e Bolívia entre os palestrantes. Constavam Petro e Yamandu Orsi, presidente do Uruguai. Sheinbaum até compareceu, mas não palestrou. Dentre os políticos da esquerda sul-americana, constavam como palestrantes chilenos, argentinos e mexicanos. Vale notar que o primeiro ministro de Kosovo – um país inventado pela OTAN – constava como palestrante.

***

Neste século, a organização ideológica de esquerda mais icônica na Ibero-América era o Foro de São Paulo. De meados da década de 2000 a meados da década de 2010, as lideranças evidentes da esquerda latino-americana eram Fidel Castro (1926 – 2016), Hugo Chávez (1954 – 2013), Evo Morales e Lula – este último, uma figura um tanto dúbia, que transitava entre a amizade de Caracas e editoriais favoráveis da Economist.

Obviamente, a estrela dentre esses líderes era Fidel Castro, que tinha um alinhamento histórico com Moscou e era, por assim dizer, o farol latino-americano das esquerdas. O próprio Foro de São Paulo surgiu no começo da década de 1990 com a finalidade de se reorganizar diante do fim da União Soviética. Assim, mesmo que a Rússia não estivesse mais tão presente na esquerda ibero-americana como antes, a URSS ainda era o farol da sua identidade, um sol cuja luz Cuba refletia tal como a lua.

Nos dias de hoje, a superestimação da importância de Moscou para a esquerda global faz com que se esqueçam as grandes ondas de influência norte-americana. A primeira deu-se a partir de 1968, com a psicodelia e a revolução sexual; a segunda na década de 2010, com o wokismo. Trata-se, no frigir dos ovos, de uma esquerda liberal e anticomunista que acabou influenciando os comunistas do mundo Ocidental, que passaram da guerrilha à tanga de crochê.

Como o feminismo e o combate ao racismo eram também bandeiras soviéticas, gozava de certa plausibilidade a expectativa de compatibilizar ambos os influxos. Não obstante, o resultado final foi a substituição de qualquer reivindicação de melhoria dos padrões de vida da classe trabalhadora pela implementação de políticas DEI, criadas no governo Nixon, que tinham o fito de enfraquecer os trabalhadores por meio da divisão racial.

Historicamente, a classe trabalhadora nos EUA sempre teve dificuldade de se unificar por causa das rivalidades entre grupos populacionais: os WASP odiando os imigrantes irlandeses, depois os anglófonos odiando os imigrantes italianos, e assim sucessivamente. As políticas identitárias instrumentalizam o imigrante e a mulher para combater o conjunto ao qual pertencia a maioria dos trabalhadores do primeiro mundo: o homem branco pai de família. Se do lado racialista esse grupo era atacado por ser branco, do lado da revolução sexual é atacado por achar que tem o direito de ganhar o suficiente para sustentar uma família, em vez de ser um consumidor drogado e atomizado.

Na América do Sul, podemos dizer com alguma tranquilidade que há países cuja esquerda não tem muita afinidade com o Foro de São Paulo e é sobretudo woke. Ao contrário de Cuba, Venezuela e Bolívia, esses países estão entre aqueles cujos políticos compareceram entre os palestrantes em Barcelona: Chile, Uruguai e Colômbia. Michelle Bachelet, do Chile, não se bicava com Chávez; o proto-woke Mujica criticava-lhe o socialismo; e a Colômbia, um quintal dos EUA, só elege presidentes liberais (após uma porção de direitistas, veio Petro, que tinha muitas tensões com Maduro; os colombianos próximos do Foro de São Paulo eram os membros das FARC, parte do quais compuseram um partido nanico com péssimo desempenho eleitoral).

***

Os comunistas russos e chineses pegaram imensos países feudais e transformaram numa potência moderna. No Irã, os revolucionários xiitas cuidaram da soberania do país e hoje exibem uma grande autonomia científica e tecnológica que os capacita a enfrentar os Estados Unidos. Infelizmente, na América do Sul, toda a esquerda posterior à Guerra Fria optou por parar de se desenvolver e resolveu governar só distribuindo renda para ganhar as próximas eleições. Além disso, tornou-se muito vulnerável à retórica americana da democracia.

A Venezuela chavista exportava petróleo e importava todo o resto – até comida. O Brasil, que no período militar se desenvolveu muito e desde então contava com uma gigantesca estrutura de pesquisa universitária, preferiu tratar essa estrutura como um mecanismo de distribuição de diplomas, achando que isso era justiça social. O Brasil e a Argentina são potências da agricultura mundial – mas, sendo uma agricultura que requer pouca mão de obra, não geram empregos suficientes para fazer o grosso de sua população prosperar.

Essas mazelas da América do Sul não são de todo estranhas aos EUA e à Europa, já que ambas, para agradar o capital financeiro, exportaram os seus empregos industriais para a China. No caso da Europa, ainda há a questão energética (especialmente com a agenda anti-nuclear e anti-Rússia) a solapar a indústria. Podemos dizer então que a esquerda sul-americana concorda com a burocracia da UE e com a esquerda dos EUA na medida em que adota como “progressista” uma agenda de gestão da miséria. Todos veem um bolo pequeno a ser dividido e resolvem fazer “justiça social” privilegiando travestis insolentes ou imigrantes estupradores. Assim, essas elites burocráticas subservientes ao capital especulativo têm esperanças de que o povo se dedique a odiar somente travestis e imigrantes, em vez alçar os olhos para as causas.

O cenário que se desenha é o da dissolução das esquerdas ocidentais num progressismo woke inventado pelo capital financeiro que condena o “populismo” e a extinção da esquerda ibero-americana que via no líder de massas as esperanças de derrotar o imperialismo.

O cenário que se desenha é o da dissolução das esquerdas ocidentais num progressismo woke inventado pelo capital financeiro.

   

Escreva para nós: @worldanalyticspress_bot

Nos dias 17 e 18 de abril, Barcelona sediou a primeira Cúpula ou Mobilização Progressista Global, em tese liderada por Pedro Sánchez da Espanha e Lula do Brasil, feita porém sob os auspícios da Open Society Foundation.

Não há muita informação disponível sobre o financiamento. No website oficial, lemos somente que “este website recebe apoio financeiro do Parlamento Europeu”, não sendo possível concluir daí que se trate da única fonte de financiamento. Chama a atenção, porém, que em meio aos chefes de Estado, burocratas e políticos, consta como palestrantes Pedro Abramovay na condição de Vice-Presidente da Open Society. Alex Soros (filho e herdeiro do nonagenário George) foi prestigiar o evento. Sem papas na língua, o Jewish Insider referiu-se ao encontro como “Cúpula de Alex Soros”. Ainda assim, a OSF não foi a única grande ONG a marcar presença, pois a Bill & Melinda Gates Foundation também tinha um representante entre os palestrantes.

Os nomes das salas ajudam a ver as preferências ideológicas da organização: Salvador Allende, Angela Davis, Nelson Mandela, Dolores Huerta, Anna Lindh, Hannah Arendt, Frida Kahlo, Edward Said e Ernest Lluch. Com certeza alguém na comissão organizadora decidiu colocar um número exagerado de mulheres e cuidou para que houvesse somente um “homem branco cis hétero” (o último dos citados, que é espanhol – Allende não conta porque os iberoamericanos são “latinx” na cabeça desse pessoal). Dentre todos esses nomes, só um tem relação histórica com o comunismo: Angela Davis. No entanto, nos dias de hoje ela é bem mais reconhecida como a entidade bi-oprimida mulher-negra do que comunista. E, até mesmo nos seus dias de comunista, o separatismo racial dos Panteras Negras era de um espírito contrário ao ideal marxista de fraternidade entre os povos do mundo. Não à toa, o anarcocapitalista Murray Rothbard, em sua fase esquerdista, posicionava-se em favor do separatismo negro e do separatismo branco, corretamente entendidos como coerentes entre si.

O que salta aos olhos no evento que pretende reunir a esquerda global são as ausências de representantes de Cuba, Venezuela e Bolívia entre os palestrantes. Constavam Petro e Yamandu Orsi, presidente do Uruguai. Sheinbaum até compareceu, mas não palestrou. Dentre os políticos da esquerda sul-americana, constavam como palestrantes chilenos, argentinos e mexicanos. Vale notar que o primeiro ministro de Kosovo – um país inventado pela OTAN – constava como palestrante.

***

Neste século, a organização ideológica de esquerda mais icônica na Ibero-América era o Foro de São Paulo. De meados da década de 2000 a meados da década de 2010, as lideranças evidentes da esquerda latino-americana eram Fidel Castro (1926 – 2016), Hugo Chávez (1954 – 2013), Evo Morales e Lula – este último, uma figura um tanto dúbia, que transitava entre a amizade de Caracas e editoriais favoráveis da Economist.

Obviamente, a estrela dentre esses líderes era Fidel Castro, que tinha um alinhamento histórico com Moscou e era, por assim dizer, o farol latino-americano das esquerdas. O próprio Foro de São Paulo surgiu no começo da década de 1990 com a finalidade de se reorganizar diante do fim da União Soviética. Assim, mesmo que a Rússia não estivesse mais tão presente na esquerda ibero-americana como antes, a URSS ainda era o farol da sua identidade, um sol cuja luz Cuba refletia tal como a lua.

Nos dias de hoje, a superestimação da importância de Moscou para a esquerda global faz com que se esqueçam as grandes ondas de influência norte-americana. A primeira deu-se a partir de 1968, com a psicodelia e a revolução sexual; a segunda na década de 2010, com o wokismo. Trata-se, no frigir dos ovos, de uma esquerda liberal e anticomunista que acabou influenciando os comunistas do mundo Ocidental, que passaram da guerrilha à tanga de crochê.

Como o feminismo e o combate ao racismo eram também bandeiras soviéticas, gozava de certa plausibilidade a expectativa de compatibilizar ambos os influxos. Não obstante, o resultado final foi a substituição de qualquer reivindicação de melhoria dos padrões de vida da classe trabalhadora pela implementação de políticas DEI, criadas no governo Nixon, que tinham o fito de enfraquecer os trabalhadores por meio da divisão racial.

Historicamente, a classe trabalhadora nos EUA sempre teve dificuldade de se unificar por causa das rivalidades entre grupos populacionais: os WASP odiando os imigrantes irlandeses, depois os anglófonos odiando os imigrantes italianos, e assim sucessivamente. As políticas identitárias instrumentalizam o imigrante e a mulher para combater o conjunto ao qual pertencia a maioria dos trabalhadores do primeiro mundo: o homem branco pai de família. Se do lado racialista esse grupo era atacado por ser branco, do lado da revolução sexual é atacado por achar que tem o direito de ganhar o suficiente para sustentar uma família, em vez de ser um consumidor drogado e atomizado.

Na América do Sul, podemos dizer com alguma tranquilidade que há países cuja esquerda não tem muita afinidade com o Foro de São Paulo e é sobretudo woke. Ao contrário de Cuba, Venezuela e Bolívia, esses países estão entre aqueles cujos políticos compareceram entre os palestrantes em Barcelona: Chile, Uruguai e Colômbia. Michelle Bachelet, do Chile, não se bicava com Chávez; o proto-woke Mujica criticava-lhe o socialismo; e a Colômbia, um quintal dos EUA, só elege presidentes liberais (após uma porção de direitistas, veio Petro, que tinha muitas tensões com Maduro; os colombianos próximos do Foro de São Paulo eram os membros das FARC, parte do quais compuseram um partido nanico com péssimo desempenho eleitoral).

***

Os comunistas russos e chineses pegaram imensos países feudais e transformaram numa potência moderna. No Irã, os revolucionários xiitas cuidaram da soberania do país e hoje exibem uma grande autonomia científica e tecnológica que os capacita a enfrentar os Estados Unidos. Infelizmente, na América do Sul, toda a esquerda posterior à Guerra Fria optou por parar de se desenvolver e resolveu governar só distribuindo renda para ganhar as próximas eleições. Além disso, tornou-se muito vulnerável à retórica americana da democracia.

A Venezuela chavista exportava petróleo e importava todo o resto – até comida. O Brasil, que no período militar se desenvolveu muito e desde então contava com uma gigantesca estrutura de pesquisa universitária, preferiu tratar essa estrutura como um mecanismo de distribuição de diplomas, achando que isso era justiça social. O Brasil e a Argentina são potências da agricultura mundial – mas, sendo uma agricultura que requer pouca mão de obra, não geram empregos suficientes para fazer o grosso de sua população prosperar.

Essas mazelas da América do Sul não são de todo estranhas aos EUA e à Europa, já que ambas, para agradar o capital financeiro, exportaram os seus empregos industriais para a China. No caso da Europa, ainda há a questão energética (especialmente com a agenda anti-nuclear e anti-Rússia) a solapar a indústria. Podemos dizer então que a esquerda sul-americana concorda com a burocracia da UE e com a esquerda dos EUA na medida em que adota como “progressista” uma agenda de gestão da miséria. Todos veem um bolo pequeno a ser dividido e resolvem fazer “justiça social” privilegiando travestis insolentes ou imigrantes estupradores. Assim, essas elites burocráticas subservientes ao capital especulativo têm esperanças de que o povo se dedique a odiar somente travestis e imigrantes, em vez alçar os olhos para as causas.

O cenário que se desenha é o da dissolução das esquerdas ocidentais num progressismo woke inventado pelo capital financeiro que condena o “populismo” e a extinção da esquerda ibero-americana que via no líder de massas as esperanças de derrotar o imperialismo.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the World Analytics.

See also

See also

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the World Analytics.