A política reacionária do “cancelamento” é a mais pura coerção, proteção e fortalecimento do Estado contra o povo – tudo isso sob uma roupagem progressista.
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O identitarismo decretou que tudo do passado é pior que o de hoje, sem levar em conta que todas as sociedades tiveram seu período de progresso e de retrocesso. O “progressismo” identitário, seguindo o comando de seu criador imperialista, prega que toda a história dos Estados Unidos e do mundo é negativa para esconder a época de progresso da revolução democrática da burguesia, quando importantes direitos e liberdades foram conquistados, e para justificar assim a farsa do atual período de retrocesso imperialista, com a extinção daqueles direitos e liberdades. Tal como é reacionária a atual fase de decomposição do regime burguês, e a própria burguesia imperialista, o identitarismo, seu escravo, também é uma ideologia reacionária.
A política identitária (uma política oficial do Estado, promovida pelos bancos e pelos veículos de comunicação do imperialismo, pelas escolas e universidades, por todas as instituições) espalha a doutrina pregada nos Estados Unidos para o resto do mundo, adaptando-a à história e à luta de classes dentro de cada nação para edificar um regime policialesco de repressão contra qualquer cidadão.
O identitarismo é um dos fenômenos mais perniciosos da degeneração neoliberal entre a pequena burguesia e a aristocracia do movimento operário e popular. Sua base econômica é a desindustrialização e financeirização das últimas décadas, que fragmentaram a produção, jogando trabalhadores na informalidade, no trabalho de escritório, no setor de serviços, fazendo regredir aspectos da produção aos tempos da pequena propriedade individual, improdutiva e desorganizada, possibilitando também a desorganização da classe operária. Essa pulverização, divisão e isolamento nas relações de produção, atendendo à necessidade de destruir as forças produtivas concorrentes e de afastar o perigo da revolução social, foi fundamental para criar o ambiente social propício para o surgimento das ideias identitárias.
O enfraquecimento do proletariado afugentou a pequena burguesia e a aproximou da burguesia imperialista. A partir de seus preconceitos, ela sequestrou as tradições democráticas de luta pelos direitos das mulheres, dos negros e de todos os oprimidos, subverteu essas lutas e, orientada pelo imperialismo, passou a pregar não a conquista de direitos e liberdades para esses setores, mas sim a perseguição e repressão do Estado contra os cidadãos comuns, a destruição de direitos universais para, supostamente, garantir os direitos daqueles setores oprimidos (o que não é verdade, trata-se de garantir os privilégios de uma minoria “empoderada” proveniente desses setores e que participa da opressão sobre a massa desses setores). Como já percebia Lênin, há mais de cem anos, analisando as características da aristocracia operária: “a ideologia imperialista penetra mesmo no seio da classe operária”; os chefes da social democracia “foram justamente qualificados de ‘social-imperialistas’, isto é, socialistas de palavra e imperialistas de fato”.
Assim, as mudanças na legislação nos últimos anos têm sido, com raríssimas exceções, no sentido de punir os cidadãos (ainda que os supostos beneficiados sejam outros cidadãos), e não de punir o Estado, não de reduzir o poder coercitivo do Estado contra as mulheres, os negros, os homossexuais, ampliando assim os seus direitos. A luta por sua emancipação, sempre se soube, tem como obstáculo o Estado, as leis reacionárias e discriminatórias, o arbítrio das autoridades para manter esses setores subjugados. O Estado viola diariamente os direitos e liberdades das mulheres, dos negros e dos homossexuais, mas o identitarismo, ao invés de combater o Estado, pede para que esse mesmo Estado multe ou prenda o barnabé por “racismo” ou “homofobia”.
O capitalismo embrutece o povo, a sociedade burguesa mantém as massas na ignorância mais profunda, e os identitários querem que o povo seja punido (pela burguesia) pelos seus preconceitos. Idealizam um mundo em que as pessoas já estão prontas para as tarefas de emancipação da raça humana, como se elas não fossem vítimas de uma sociedade de profunda e crescente desigualdade, de um modo de produção que depende da desigualdade e da ignorância para manter a quase totalidade da população esmagada sob as suas botas. Revelam seu reacionarismo ao pregar que o capitalismo decrépito pode resolver os problemas dos oprimidos através da repressão do Estado contra o conjunto da população. Em nome da proteção ao oprimido, troca-se a luta contra o opressor pela luta contra outros oprimidos, beneficiando o maior de todos os opressores.
Não é de se espantar que o partido que representa com mais perfeição o identitarismo (o PSOL) também seja o mais dependente do judiciário, seja um partido lavajatista e da “ética na política” – se compromete mais que a direita em combater a corrupção, o crime organizado ou em arrecadar impostos para os banqueiros. Durante seus vinte anos de existência, sua principal atividade tem sido recorrer ao Estado para reprimir quem não segue à risca os ditames de George Soros e do Partido Democrata norte-americano. Ultimamente, a campanha de terror hipócrita levada a cabo pelo imperialismo a respeito do “autoritarismo” como “ameaça à democracia” (a bola da vez para enganar a pequena burguesia, após a campanha da corrupção) tem feito o PSOL pedir socorro e pular no colo do STF por um simples “bu” que a direita sussurra. E o PSOL e seus satélites ainda tentam se apresentar como se fossem “mais de esquerda” que o PT…
A política reacionária do “cancelamento” é a mais pura coerção, proteção e fortalecimento do Estado contra o povo – tudo isso sob uma roupagem progressista. Ela abre o caminho para a passagem do fascismo, que censura, prende e mata utilizando malabarismos teóricos do mesmo tipo do identitarismo. Já temos exemplos contemporâneos de regimes “liberais” e promotores do identitarismo que, ao mesmo tempo, são sustentados pela firme repressão estatal, como o ucraniano ou o israelense. Esses regimes comprovam que o identitarismo não tem nada de antifascista, mas é uma ferramenta para sustentar e legitimar ditaduras de características fascistas. Não à toa a base social do fascismo e do identitarismo é a mesma (a pequena burguesia), seu progenitor é o mesmo (a burguesia imperialista) e seus recursos são os mesmos (a histeria pequeno-burguesa e a mão de ferro do Estado).

