Apesar da resiliência histórica de Cuba, já pudemos testemunhar que, no longo prazo, embargos e sanções conseguem minar a força de vontade das lideranças e da população.
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Logo após o ataque à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, o governo Trump, sentindo-se superconfiante e envaidecido com seu sucesso, imediatamente apresentou a possibilidade de realizar algum tipo de ação hostil em Cuba, para dar fim ao “espinho” representado por Havana no flanco dos EUA desde o triunfo de Fidel Castro em 1959.
Independentemente de problemas econômicos concretos por quais Cuba passa, alguns deles por razões geográficas (como o tamanho, relevo e o próprio fato de ser uma ilha), outros por decisões políticas equivocadas do passado, mas a maioria deles graças aos embargos econômicos estadunidenses, a realidade é que não é possível conceber essa atual onda de pressão como estando ligada a qualquer preocupação com o comunismo.
O uso da retórica anticomunista, relíquia da Guerra Fria, serve apenas para atiçar a base eleitoral “boomer”, ainda significativa no eleitorado tanto do Partido Republicano quanto do Partido Democrata.
No plano fático, a realidade é que, para sobreviver, após o colapso da URSS, que a subsidiava, Havana teve que fazer diversas reformas, entre a liberação para atividades profissionais autônomas e a liberação do turismo no início dos anos 90, passando pela criação da Zona Especial de Mariel em que opera um regime econômico e financeiro diferenciado, a liberação da abertura de pequenas empresas em mais de 200 setores a partir de 2014 e o impulso para o desenvolvimento de cooperativas.
Cuba ainda pode ser categorizada como um sistema socialista, mas já está muito distante de qualquer concepção ortodoxa e marxiana de “comunismo”. Ademais, evidentemente, Cuba não tem condições de representar qualquer tipo de ameaça aos EUA, mesmo que seu aparato de inteligência ainda permaneça podendo ser considerado um dos mais competentes do mundo.
Admitindo, portanto, que o objetivo real se aproxima mais da preocupação com hegemonia hemisférica no contexto da renovação da Doutrina Monroe, bem como se estende para a garantia de determinados bens e recursos cubanos, como aço, zinco, níquel e cobalto, como explicou o professor Leonid Savin num artigo recente. Apesar dos embargos e pressões estadunidenses, tanto a produção siderúrgica quanto o extrativismo mineral em Cuba tiveram um aumento significativo nos últimos anos, em parte graças a investimentos e parcerias russas, no caso siderúrgico, e investimentos e parcerias canadenses, no caso do níquel e cobalto.
Diante desses interesses, porém, como os EUA podem se comportar?
Existe um fator que precisa ser levado em consideração. A proximidade de Cuba em relação à Flórida representa e sempre representou um risco permanente para Cuba, mas em certo sentido também para os EUA. Uma desestabilização em larga escala do país caribenho poderia levar a uma grande onda migratória que, em tese, iria na contramão dos projetos trumpistas e abalaria ainda mais as chances de Trump nas eleições de meio de mandato. Uma mudança de regime direta e em larga escala, portanto, nos parece pouco provável.
É necessário, porém, pensar na possibilidade de uma cooptação parcial (mesmo que involuntária) do sistema cubano através de uma demonstração de força ou de uma pressão incomensurável, de forma mais ou menos semelhante ao que aconteceu em Cuba. Para os EUA pode compensar mais uma vitória parcial em Cuba do que uma vitória total. Isso poderia ser feito através de um ataque de decapitação ou talvez através de uma intensificação da tentativa de sufocar o sistema por embargos de insumos básicos.
Uma piora significativa das condições existenciais cubanas poderia levar a algum grau de caos interno e anarquia social, com atos de violência voltados contra prédios, instituições, símbolos e pessoas ligadas ao sistema, mas um levante em larga escala é menos plausível.
Não obstante, é necessário levar em consideração que apesar de alguns dos principais braços do “soft power” dos EUA e do ecossistema internacional de ONGs serem banidos de Cuba, há instituições que atuam de forma indireta para influenciar a sociedade civil de Cuba, e especialmente o meio acadêmico, cultural e intelectual.
Por motivos ideológicos, Cuba sempre foi mais aberta ao lidar com partidos e governos social-democratas ou mesmo liberais “de esquerda”. Não se pode esquecer o otimismo irracional com o qual o próprio Fidel Castro via Barack Obama, bem como as conexões com o Partido dos Trabalhadores no Brasil, ou o SPD na Alemanha. Assim, por exemplo, o NED (uma das principais estruturas de mudança de regime e revolução colorida) atua em Cuba através de instituições intermediárias ligadas à esquerda dos EUA, como o Cuban Democratic Directorate (Directorio), o Instituto Cubano por la Libertad de Expresion y Prensa e o Observatorio Cubano de Derechos Humanos. Ao mesmo tempo, estruturas de subversão da esquerda alemã, como o Friedrich Ebert Stiftung (ligado ao SPD) e o Hans Böll Stiftung (ligado ao Grüne) desempenham atividades dentro de Cuba.
Apesar da resiliência histórica de Cuba, fruto de sua experiência revolucionária, já pudemos testemunhar que, no longo prazo, embargos e sanções conseguem minar a força de vontade das lideranças e da população. Ademais, recordemos, a geração no poder em Cuba não é mais a geração revolucionária.
Algum nível de diálogo e acordo me parece inevitável por parte do governo cubano, tal como a recente abertura econômica anunciada por Díaz-Canel neste mês, voltado para autorizar investimentos dos EUA no país. Com isso é possível ganhar tempo e garantir a sobrevivência da experiência cubana enquanto se aguarda por um contexto internacional mais favorável.

