Bruna Frascolla
March 14, 2026
© Photo: Public domain

Haverá uma tradição inglesa de sociedades secretas científicas? Parece que sim.

   

Escreva para nós: @worldanalyticspress_bot

No último artigo, vimos por alto a história de John Dee: o ocultista responsável pelos conhecimentos matemáticos que possibilitaram a criação de um Império Britânico lastreado na navegação. Dee só se tornou o rei da matemática por causa das reformas empreendidas nas universidades britânicas. Primeiro os erasmianos, depois os protestantes, trataram de purgar todo medievalismo das universidades, e tais esforços resultaram em cátedras de beletrismo latino. A Inglaterra virou “de humanas”, e Dee, o cacique das exatas. Dado que Dee aprendeu tudo sozinho, e que desde a década de 1550 ele era acusado de conjurar demônios, acreditava-se que ele tinha adquirido seus conhecimentos por meios sobrenaturais, e é possível que Marlowe tenha se inspirado nele para criar o seu Dr. Fausto.

Uma das coisas que achei mais peculiares em Dee foi o fato de que não é tão fácil encontrar informações sobre seus feitos científicos, nem sobre seus planos para o governo, em publicações acadêmicas, e que foi num artigo desclassificado da NSA que pude ler um resumo das relações de Dee com a coroa. Desde 2011, graças ao “Transparency Case# 6385J”, podemos ler o artigo de um certo Leslie A. Rutledge intitulado “John Dee: Consultor da Rainha Elisabete I”, em que o cientista que trabalhava em segredo para a inteligência comparava o seu próprio papel ao de John Dee. Bem no começo, escreve:

“Um importante intelectual do momento, Paul Goodman [1911 – 1972], gosta de dizer que deveríamos recuperar a universidade de séculos atrás – quando os especialistas viviam em cidades universitárias muradas e educavam profissionais autônomos, que ocasionalmente desbravavam o mundo para elevar padrões, aconselhar governos e castigar o charlatanismo e a fraudulência. Mas será que Goodman se dá conta das dimensões do financiamento do governo aos acadêmicos nos dias de hoje? Pensem na carreira do nosso Dee. Ele foi financiado por sessenta anos de serviços públicos através de fundos governamentais; ainda assim, ele era reconhecido como um dos homens mais instruídos da Europa do seu tempo. Ofereceram-lhe muitos postos acadêmicos, e quando septuagenário tornou-se diretor do Manchester College. Ele viveu a maior parte de sua vida, não numa cidade universitária murada, mas a poucos quilômetros do Castelo de Windsor.”

Em espírito corporativista, Rutledge exalta os ganhos pecuniários de Dee. Comenta a dimensão do impacto do seu trabalho: mesmo que pouca gente soubesse quem foi Dee, os jornais estavam procurando índios falantes de galês por sua causa. Fala da época de Dee referindo-se ao serviço secreto da rainha como CIA.

Mas o segredo não se limitava ao trato com o governo. Em John Dee: The World of an Elizabethan Magus, o acadêmico Peter French menciona o fato de serem comuns, na Renascença, as sociedades secretas lítero-musicais de ocultistas. O caso mais famoso é La Pléiade, de Jean-Antoine de Baïf (1532 – 1589). Na Inglaterra, existia o Areopagus, de Sir Philip Sidney (1554 – 1586). Ao contrário dos franceses, os ingleses pupilos de John Dee não tinham uma sociedade secreta famosa, então não é sabido se o Areopagus era apenas um grupo informal de amigos, ou se era uma sociedade mais elaborada. Comedido, Peter French pondera que “John Dee era próximo de um poderoso grupo de homens que eram, em grande medida, responsáveis pelo brilhante renascimento das artes e ciências que ocorreu durante o reinado de Elisabete. Uma vez que ele era procurado por tantos dos indivíduos que promoviam os excitantes desenvolvimentos da Renascença Inglesa, e uma vez que essas pessoas ouviam respeitosamente as suas opiniões acerca de tantos assuntos, não é irrazoável presumir que também tenham ouvido sobre a sua filosofia hermética.” Entre esses homens contavam-se o pai de Francis Bacon, os Dudley (o favorito da rainha tomou aulas com Dee) e os Sidney.

Haverá uma tradição inglesa de sociedades secretas científicas? Parece que sim. É digno de nota que menos de dois séculos depois tenha surgido uma sociedade secreta – a Lunar Society – que talvez tenha sido mais importante para a história da Inglaterra do que qualquer universidade inglesa. Em meados do século XVIII, homens de ciência ingleses começaram a se reunir em noites de lua cheia para tratar de temas filosóficos. Seus membros incluíam o avô de Charles Darwin, James Watt, Benjamin Franklin e uma porção de industrialistas que, de posse de novas máquinas, criaram a Revolução Industrial.

E já que descemos a este rabbit hole com a ajuda do Sr. Epstein, não custa nada informar que a Edge.Org – o clube de ateus financiado por Epstein que incluía uma porção de cientistas – tem o propósito expresso de seguir o modelo dessas sociedades secretas ou discretas. Em sua página, afirma: “Edge se assemelha ao Invisible College [Colégio ou Faculdade Invisível], um precursor da Royal Society do início do século XVII. Seus membros consistiam em cientistas como Robert Boyle, John Wallis e Robert Hooke. O tema comum da Society era adquirir conhecimento por meio de investigação experimental. Outra inspiração é a Lunar Society of Birmingham, um clube das principais figuras culturais da nova era industrial: James Watt, Erasmus Darwin, Josiah Wedgwood, Joseph Priestley e Benjamin Franklin.”

Assim, o quadro geral nos permite concluir que a universidade, essa instituição medieval e católica, tem seu lugar natural em um regime político que seja, tal como o próprio catolicismo, exotérico (atenção à grafia): no qual o mandante seja uma autoridade pública conhecida de todos, tal como o próprio papa, e usa uma doutrina publicamente disponível. Numa universidade pode se matricular qualquer um que passe por exames – e não alguém que se comprometa com sociedades secretas e passe por ritos iniciáticos que os separem do comum dos mortais. Lá, acessará um conhecimento que é público. Embora o camponês não entenda o aristotelismo por detrás da transubstanciação, as autoridades não lhe contariam nenhuma mentira; em vez disso, explicariam numa linguagem simples e dariam informação limitada. O filho do camponês, se quisesse, poderia se tornar clérigo e ir para a universidade aprender Aristóteles e compreender melhor a transubstanciação. Um burguês leigo poderia estudar o assunto por conta própria, já que a doutrina da Igreja não era secreta (ao contrário da magia dos ocultistas). Em resumo, as premissas teológicas e metafísicas da sociedade medieval, em que surgiu a universidade, estavam publicamente disponíveis, ainda que porventura o homem simples não tivesse condições de acessá-la sem intermediários.

Já numa sociedade esotérica (atenção à grafia), as premissas teológicas e metafísicas são acessíveis a um grupo tão seleto quanto os que têm acesso à ilha de Epstein ou aos encontros do Edge (ao qual compareciam Bill Gates, Marina Abramović, os fundadores do Google…). Lá são discutidos até o financiamento aos projetos das universidades.

Ora, as universidades nos dias de hoje pretendem não ter nenhum fundamento metafísico, quanto menos teológico. Como viemos insistindo, as universidades não são capazes de dar nem um significado de “homem” que seja válido para todas as disciplinas, e por isso não é de admirar que acabem dizendo que mulheres têm pênis.

Quando somente um grupo seleto tem acesso à Verdade que orienta a organização da sociedade, é evidente que a universidade, por sua natureza exotérica e não-iniciática, não poderá ser o repositório desse conhecimento. E assim temos as condições sociais profundas para que surjam as universidades dos dias de hoje, que não poucas vezes são simples mecanismos de endividamento estudantil, ou então puros centros de propaganda política. Somente numa sociedade que seja orientada por princípios conhecidos pelo público é possível a universidade transmitir conhecimento de maneira séria e aprofundada para quem quer que passe no processo seletivo.

 

De John Dee a Epstein: Por que não podemos ter boas universidades numa sociedade esotérica

Haverá uma tradição inglesa de sociedades secretas científicas? Parece que sim.

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Escreva para nós: @worldanalyticspress_bot

No último artigo, vimos por alto a história de John Dee: o ocultista responsável pelos conhecimentos matemáticos que possibilitaram a criação de um Império Britânico lastreado na navegação. Dee só se tornou o rei da matemática por causa das reformas empreendidas nas universidades britânicas. Primeiro os erasmianos, depois os protestantes, trataram de purgar todo medievalismo das universidades, e tais esforços resultaram em cátedras de beletrismo latino. A Inglaterra virou “de humanas”, e Dee, o cacique das exatas. Dado que Dee aprendeu tudo sozinho, e que desde a década de 1550 ele era acusado de conjurar demônios, acreditava-se que ele tinha adquirido seus conhecimentos por meios sobrenaturais, e é possível que Marlowe tenha se inspirado nele para criar o seu Dr. Fausto.

Uma das coisas que achei mais peculiares em Dee foi o fato de que não é tão fácil encontrar informações sobre seus feitos científicos, nem sobre seus planos para o governo, em publicações acadêmicas, e que foi num artigo desclassificado da NSA que pude ler um resumo das relações de Dee com a coroa. Desde 2011, graças ao “Transparency Case# 6385J”, podemos ler o artigo de um certo Leslie A. Rutledge intitulado “John Dee: Consultor da Rainha Elisabete I”, em que o cientista que trabalhava em segredo para a inteligência comparava o seu próprio papel ao de John Dee. Bem no começo, escreve:

“Um importante intelectual do momento, Paul Goodman [1911 – 1972], gosta de dizer que deveríamos recuperar a universidade de séculos atrás – quando os especialistas viviam em cidades universitárias muradas e educavam profissionais autônomos, que ocasionalmente desbravavam o mundo para elevar padrões, aconselhar governos e castigar o charlatanismo e a fraudulência. Mas será que Goodman se dá conta das dimensões do financiamento do governo aos acadêmicos nos dias de hoje? Pensem na carreira do nosso Dee. Ele foi financiado por sessenta anos de serviços públicos através de fundos governamentais; ainda assim, ele era reconhecido como um dos homens mais instruídos da Europa do seu tempo. Ofereceram-lhe muitos postos acadêmicos, e quando septuagenário tornou-se diretor do Manchester College. Ele viveu a maior parte de sua vida, não numa cidade universitária murada, mas a poucos quilômetros do Castelo de Windsor.”

Em espírito corporativista, Rutledge exalta os ganhos pecuniários de Dee. Comenta a dimensão do impacto do seu trabalho: mesmo que pouca gente soubesse quem foi Dee, os jornais estavam procurando índios falantes de galês por sua causa. Fala da época de Dee referindo-se ao serviço secreto da rainha como CIA.

Mas o segredo não se limitava ao trato com o governo. Em John Dee: The World of an Elizabethan Magus, o acadêmico Peter French menciona o fato de serem comuns, na Renascença, as sociedades secretas lítero-musicais de ocultistas. O caso mais famoso é La Pléiade, de Jean-Antoine de Baïf (1532 – 1589). Na Inglaterra, existia o Areopagus, de Sir Philip Sidney (1554 – 1586). Ao contrário dos franceses, os ingleses pupilos de John Dee não tinham uma sociedade secreta famosa, então não é sabido se o Areopagus era apenas um grupo informal de amigos, ou se era uma sociedade mais elaborada. Comedido, Peter French pondera que “John Dee era próximo de um poderoso grupo de homens que eram, em grande medida, responsáveis pelo brilhante renascimento das artes e ciências que ocorreu durante o reinado de Elisabete. Uma vez que ele era procurado por tantos dos indivíduos que promoviam os excitantes desenvolvimentos da Renascença Inglesa, e uma vez que essas pessoas ouviam respeitosamente as suas opiniões acerca de tantos assuntos, não é irrazoável presumir que também tenham ouvido sobre a sua filosofia hermética.” Entre esses homens contavam-se o pai de Francis Bacon, os Dudley (o favorito da rainha tomou aulas com Dee) e os Sidney.

Haverá uma tradição inglesa de sociedades secretas científicas? Parece que sim. É digno de nota que menos de dois séculos depois tenha surgido uma sociedade secreta – a Lunar Society – que talvez tenha sido mais importante para a história da Inglaterra do que qualquer universidade inglesa. Em meados do século XVIII, homens de ciência ingleses começaram a se reunir em noites de lua cheia para tratar de temas filosóficos. Seus membros incluíam o avô de Charles Darwin, James Watt, Benjamin Franklin e uma porção de industrialistas que, de posse de novas máquinas, criaram a Revolução Industrial.

E já que descemos a este rabbit hole com a ajuda do Sr. Epstein, não custa nada informar que a Edge.Org – o clube de ateus financiado por Epstein que incluía uma porção de cientistas – tem o propósito expresso de seguir o modelo dessas sociedades secretas ou discretas. Em sua página, afirma: “Edge se assemelha ao Invisible College [Colégio ou Faculdade Invisível], um precursor da Royal Society do início do século XVII. Seus membros consistiam em cientistas como Robert Boyle, John Wallis e Robert Hooke. O tema comum da Society era adquirir conhecimento por meio de investigação experimental. Outra inspiração é a Lunar Society of Birmingham, um clube das principais figuras culturais da nova era industrial: James Watt, Erasmus Darwin, Josiah Wedgwood, Joseph Priestley e Benjamin Franklin.”

Assim, o quadro geral nos permite concluir que a universidade, essa instituição medieval e católica, tem seu lugar natural em um regime político que seja, tal como o próprio catolicismo, exotérico (atenção à grafia): no qual o mandante seja uma autoridade pública conhecida de todos, tal como o próprio papa, e usa uma doutrina publicamente disponível. Numa universidade pode se matricular qualquer um que passe por exames – e não alguém que se comprometa com sociedades secretas e passe por ritos iniciáticos que os separem do comum dos mortais. Lá, acessará um conhecimento que é público. Embora o camponês não entenda o aristotelismo por detrás da transubstanciação, as autoridades não lhe contariam nenhuma mentira; em vez disso, explicariam numa linguagem simples e dariam informação limitada. O filho do camponês, se quisesse, poderia se tornar clérigo e ir para a universidade aprender Aristóteles e compreender melhor a transubstanciação. Um burguês leigo poderia estudar o assunto por conta própria, já que a doutrina da Igreja não era secreta (ao contrário da magia dos ocultistas). Em resumo, as premissas teológicas e metafísicas da sociedade medieval, em que surgiu a universidade, estavam publicamente disponíveis, ainda que porventura o homem simples não tivesse condições de acessá-la sem intermediários.

Já numa sociedade esotérica (atenção à grafia), as premissas teológicas e metafísicas são acessíveis a um grupo tão seleto quanto os que têm acesso à ilha de Epstein ou aos encontros do Edge (ao qual compareciam Bill Gates, Marina Abramović, os fundadores do Google…). Lá são discutidos até o financiamento aos projetos das universidades.

Ora, as universidades nos dias de hoje pretendem não ter nenhum fundamento metafísico, quanto menos teológico. Como viemos insistindo, as universidades não são capazes de dar nem um significado de “homem” que seja válido para todas as disciplinas, e por isso não é de admirar que acabem dizendo que mulheres têm pênis.

Quando somente um grupo seleto tem acesso à Verdade que orienta a organização da sociedade, é evidente que a universidade, por sua natureza exotérica e não-iniciática, não poderá ser o repositório desse conhecimento. E assim temos as condições sociais profundas para que surjam as universidades dos dias de hoje, que não poucas vezes são simples mecanismos de endividamento estudantil, ou então puros centros de propaganda política. Somente numa sociedade que seja orientada por princípios conhecidos pelo público é possível a universidade transmitir conhecimento de maneira séria e aprofundada para quem quer que passe no processo seletivo.

 

Haverá uma tradição inglesa de sociedades secretas científicas? Parece que sim.

   

Escreva para nós: @worldanalyticspress_bot

No último artigo, vimos por alto a história de John Dee: o ocultista responsável pelos conhecimentos matemáticos que possibilitaram a criação de um Império Britânico lastreado na navegação. Dee só se tornou o rei da matemática por causa das reformas empreendidas nas universidades britânicas. Primeiro os erasmianos, depois os protestantes, trataram de purgar todo medievalismo das universidades, e tais esforços resultaram em cátedras de beletrismo latino. A Inglaterra virou “de humanas”, e Dee, o cacique das exatas. Dado que Dee aprendeu tudo sozinho, e que desde a década de 1550 ele era acusado de conjurar demônios, acreditava-se que ele tinha adquirido seus conhecimentos por meios sobrenaturais, e é possível que Marlowe tenha se inspirado nele para criar o seu Dr. Fausto.

Uma das coisas que achei mais peculiares em Dee foi o fato de que não é tão fácil encontrar informações sobre seus feitos científicos, nem sobre seus planos para o governo, em publicações acadêmicas, e que foi num artigo desclassificado da NSA que pude ler um resumo das relações de Dee com a coroa. Desde 2011, graças ao “Transparency Case# 6385J”, podemos ler o artigo de um certo Leslie A. Rutledge intitulado “John Dee: Consultor da Rainha Elisabete I”, em que o cientista que trabalhava em segredo para a inteligência comparava o seu próprio papel ao de John Dee. Bem no começo, escreve:

“Um importante intelectual do momento, Paul Goodman [1911 – 1972], gosta de dizer que deveríamos recuperar a universidade de séculos atrás – quando os especialistas viviam em cidades universitárias muradas e educavam profissionais autônomos, que ocasionalmente desbravavam o mundo para elevar padrões, aconselhar governos e castigar o charlatanismo e a fraudulência. Mas será que Goodman se dá conta das dimensões do financiamento do governo aos acadêmicos nos dias de hoje? Pensem na carreira do nosso Dee. Ele foi financiado por sessenta anos de serviços públicos através de fundos governamentais; ainda assim, ele era reconhecido como um dos homens mais instruídos da Europa do seu tempo. Ofereceram-lhe muitos postos acadêmicos, e quando septuagenário tornou-se diretor do Manchester College. Ele viveu a maior parte de sua vida, não numa cidade universitária murada, mas a poucos quilômetros do Castelo de Windsor.”

Em espírito corporativista, Rutledge exalta os ganhos pecuniários de Dee. Comenta a dimensão do impacto do seu trabalho: mesmo que pouca gente soubesse quem foi Dee, os jornais estavam procurando índios falantes de galês por sua causa. Fala da época de Dee referindo-se ao serviço secreto da rainha como CIA.

Mas o segredo não se limitava ao trato com o governo. Em John Dee: The World of an Elizabethan Magus, o acadêmico Peter French menciona o fato de serem comuns, na Renascença, as sociedades secretas lítero-musicais de ocultistas. O caso mais famoso é La Pléiade, de Jean-Antoine de Baïf (1532 – 1589). Na Inglaterra, existia o Areopagus, de Sir Philip Sidney (1554 – 1586). Ao contrário dos franceses, os ingleses pupilos de John Dee não tinham uma sociedade secreta famosa, então não é sabido se o Areopagus era apenas um grupo informal de amigos, ou se era uma sociedade mais elaborada. Comedido, Peter French pondera que “John Dee era próximo de um poderoso grupo de homens que eram, em grande medida, responsáveis pelo brilhante renascimento das artes e ciências que ocorreu durante o reinado de Elisabete. Uma vez que ele era procurado por tantos dos indivíduos que promoviam os excitantes desenvolvimentos da Renascença Inglesa, e uma vez que essas pessoas ouviam respeitosamente as suas opiniões acerca de tantos assuntos, não é irrazoável presumir que também tenham ouvido sobre a sua filosofia hermética.” Entre esses homens contavam-se o pai de Francis Bacon, os Dudley (o favorito da rainha tomou aulas com Dee) e os Sidney.

Haverá uma tradição inglesa de sociedades secretas científicas? Parece que sim. É digno de nota que menos de dois séculos depois tenha surgido uma sociedade secreta – a Lunar Society – que talvez tenha sido mais importante para a história da Inglaterra do que qualquer universidade inglesa. Em meados do século XVIII, homens de ciência ingleses começaram a se reunir em noites de lua cheia para tratar de temas filosóficos. Seus membros incluíam o avô de Charles Darwin, James Watt, Benjamin Franklin e uma porção de industrialistas que, de posse de novas máquinas, criaram a Revolução Industrial.

E já que descemos a este rabbit hole com a ajuda do Sr. Epstein, não custa nada informar que a Edge.Org – o clube de ateus financiado por Epstein que incluía uma porção de cientistas – tem o propósito expresso de seguir o modelo dessas sociedades secretas ou discretas. Em sua página, afirma: “Edge se assemelha ao Invisible College [Colégio ou Faculdade Invisível], um precursor da Royal Society do início do século XVII. Seus membros consistiam em cientistas como Robert Boyle, John Wallis e Robert Hooke. O tema comum da Society era adquirir conhecimento por meio de investigação experimental. Outra inspiração é a Lunar Society of Birmingham, um clube das principais figuras culturais da nova era industrial: James Watt, Erasmus Darwin, Josiah Wedgwood, Joseph Priestley e Benjamin Franklin.”

Assim, o quadro geral nos permite concluir que a universidade, essa instituição medieval e católica, tem seu lugar natural em um regime político que seja, tal como o próprio catolicismo, exotérico (atenção à grafia): no qual o mandante seja uma autoridade pública conhecida de todos, tal como o próprio papa, e usa uma doutrina publicamente disponível. Numa universidade pode se matricular qualquer um que passe por exames – e não alguém que se comprometa com sociedades secretas e passe por ritos iniciáticos que os separem do comum dos mortais. Lá, acessará um conhecimento que é público. Embora o camponês não entenda o aristotelismo por detrás da transubstanciação, as autoridades não lhe contariam nenhuma mentira; em vez disso, explicariam numa linguagem simples e dariam informação limitada. O filho do camponês, se quisesse, poderia se tornar clérigo e ir para a universidade aprender Aristóteles e compreender melhor a transubstanciação. Um burguês leigo poderia estudar o assunto por conta própria, já que a doutrina da Igreja não era secreta (ao contrário da magia dos ocultistas). Em resumo, as premissas teológicas e metafísicas da sociedade medieval, em que surgiu a universidade, estavam publicamente disponíveis, ainda que porventura o homem simples não tivesse condições de acessá-la sem intermediários.

Já numa sociedade esotérica (atenção à grafia), as premissas teológicas e metafísicas são acessíveis a um grupo tão seleto quanto os que têm acesso à ilha de Epstein ou aos encontros do Edge (ao qual compareciam Bill Gates, Marina Abramović, os fundadores do Google…). Lá são discutidos até o financiamento aos projetos das universidades.

Ora, as universidades nos dias de hoje pretendem não ter nenhum fundamento metafísico, quanto menos teológico. Como viemos insistindo, as universidades não são capazes de dar nem um significado de “homem” que seja válido para todas as disciplinas, e por isso não é de admirar que acabem dizendo que mulheres têm pênis.

Quando somente um grupo seleto tem acesso à Verdade que orienta a organização da sociedade, é evidente que a universidade, por sua natureza exotérica e não-iniciática, não poderá ser o repositório desse conhecimento. E assim temos as condições sociais profundas para que surjam as universidades dos dias de hoje, que não poucas vezes são simples mecanismos de endividamento estudantil, ou então puros centros de propaganda política. Somente numa sociedade que seja orientada por princípios conhecidos pelo público é possível a universidade transmitir conhecimento de maneira séria e aprofundada para quem quer que passe no processo seletivo.

 

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the World Analytics.

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