O Império Britânico é a invenção de um feiticeiro celta que se comunicava com “anjos” um tanto esquisitos e acreditava que a Rainha Elisabete restauraria e superaria o império mítico do Rei Artur.
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Na ilha da Grã-Bretanha há três países: Inglaterra, Escócia e País de Gales. Nos tempos do Império Romano, a Grã-Bretanha, chamada de Britânia, era ocupada por britânicos (ou bretões). Daí o nome da ilha. Por que existe essa divisão de países? Durante a Idade Média, tribos bárbaras saíram da atual Dinamarca e da Saxônia para conquistar a Grã-Bretanha e expulsar os britânicos, um povo celta, de suas terras. Eram os anglos e os saxões, que se misturaram entre si e deram origem à Inglaterra, ou Terra dos Anglos. Uma parte dos britânicos expulsos foi para um pedaço da França que ganhou o nome de Bretanha, fazendo com que o nome Grã-Bretanha se tornasse conveniente para diferenciar a grande ilha da terra continental dos bretões. Outra parte ficou encurralada no diminuto País de Gales, a terra de onde o Rei Artur, cristão, tentava resistir e reconquistar a terra perdida para os bárbaros infiéis.
Ora, dado o insucesso do pobre rei celta, por que será que a Inglaterra resolveu criar, no período elisabetano, o Império Britânico? E não, digamos, um Império Inglês?
A resposta está na mitologia em torno da fundação da Inglaterra. Ainda na Alta Idade Média, uma obra anônima intitulada Historia Brittonum alegava que o primeiro rei britânico havia sido um certo Brutus de Troia, que era descendente de Enéas, mítico fundador de Roma. No século XII, um clérigo galês com muito talento literário chamado Godofredo de Monmouth fez as vezes de historiador com a obra Historia Regum Brittaniae, na qual descreve até a noite de amor na qual o Rei Arthur foi concebido. Agora Arthur era um rei britânico descendente de Enéas e de Brutus, que nomeia a ilha como Britânia em homenagem a si próprio. Godofredo inventou também uma porção de conquistas nórdicas para Arthur.
Nos albores da modernidade, a mitologia britânica, inventada na Idade Média, ganha uma importância política sem precedente, com a coroação do galês Henrique VII em 1485 como Rei da Inglaterra. Era o primeiro rei da problemática dinastia Tudor – e os reis Tudor, por serem de origem galesa, serão transformados em descendentes do Rei Arthur, de Brutus de Troia e, como não, do fundador de Roma.
Para complicar ainda mais a coisa, há a Reforma: Henrique VIII, filho de Henrique VII, rompe com a Igreja Católica na década de 1530, porque não aceita continuar casado com a esposa que não lhe dera um herdeiro varão. Na mesma época, o reformador John Bale (1495 – 1563), pioneiro em apresentar Roma como Babilônia e o Papa como o Anticristo, já jurava que os antigos britânicos tinham um cristianismo mais puro do que o dos romanos; que os britânicos sempre combateram Roma e que os Tudor são legítimos herdeiros do Rei Artur, tendo portanto a obrigação de combater Roma, sob pena de serem punidos por Deus.
Para os fanáticos protestantes do período, combater Roma poderia significar algo relativamente simples como purgar a Igreja Anglicana de coisas consideradas papistas. (Tanto que centenas de puritanos, frustrados com o governo da Rainha Elisabete, iriam embora para América por acreditarem que Deus iria destruir a Inglaterra por causa disso. A destruição do papado, acompanhada pelos maiores cataclismos, estava prevista para 1650.) Mas nessa época de loucura generalizada, nem todos os loucos eram de um tipo pio. E o louco que nos interessa é um louco ocultista chamado John Dee (1527 – 1609).
Mais um império mundial
Já vimos em textos anteriores que, nos séculos XVII, rondava em meios influenciados pela cabala a ideia de que um novo império mundial estava na iminência de surgir, junto com uma nova religião ecumênica e o Milênio. Na maioria das versões, o novo imperador liberta Jerusalém dos turcos e governa o mundo de lá. No seiscentos, destaquei Cristina da Suécia e Antonio Vieira como adeptos de La Peyrère, que a seu turno repetia o quinhentista Postel. No esquema destes últimos, os franceses são o povo eleito, e um rei francês iria libertar Jerusalém dos turcos, instalando lá os judeus. Para Antonio Vieira, o povo destinado ao Quinto Império do mundo era o português, liderado por D. João IV, que cumpre as profecias do Bandarra e ressuscitará para levar Portugal à glória. Ora, em relação à França e Portugal, a Inglaterra tinha a vantagem de ter no trono uma descendente do próprio Enéas!
Na Inglaterra, John Dee, que chegou a conhecer Postel, foi o mentor do “Brytish Impire”, do Império Britânico. Ele era filho de galês e conselheiro da Rainha Elisabete desde quando esta ascendeu ao trono em 1558. Na verdade, aos 20 anos o jovem Dee já era admirado dentro e fora da Inglaterra por seus avançados conhecimentos matemáticos.
Sobre a consultoria, vale citar um artigo desclassificado da NSA: “Como consultor do governo, era excelente em matemática, criptografia, ciência natural, navegação, biblioteconomia e, acima de tudo, nas ciências que mais recompensavam naqueles dias: astrologia, alquimia e fenômenos psíquicos. Ele era, sozinho, uma Rand Corporation para o governo Tudor de Elisabete”. A Rand Corporation é uma organização privada de financiamento obscuro que subsidia a inteligência militar dos Estados Unidos com pesquisas científicas e sociais.
Não é possível exagerar a importância de John Dee para a coroa britânica. Por isso, o relativo silêncio da academia sobre ele é algo digno de nota. Por incrível que pareça, o âmbito no qual é mais fácil encontrar escritos e informações sobre Dee é o esoterismo. Assim, é relativamente fácil descobrir que John Dee conversava com “anjos” usando apetrechos como um espelho asteca, uma bola de cristal, tabuleiros estrelados (apetrechos expostos no Museu Britânico), mais o auxílio do médium Edward Kelley – e que a parceria durou até ambos obedecerem às ordens de um “anjo” de trocarem de esposas. Difícil é descobrir que essa figura excêntrica foi tão importante na política.
As grandes crenças de Dee conexas com o Império
Uma das poucas obras dedicadas à vida política e filosófica de John Dee é John Dee: The World of an Elizabethan Magus, de Peter French. Na obra, vemos que John Dee acreditava na mitologia britânica, de modo que a Rainha Elisabete descendia do fundador de Roma através o Rei Arthur.Vale destacar que a mitologia britânica já havia sido refutada pelo humanista italiano Polidoro Virgílio na primeira metade do século com a obra Anglica Historia. No entanto, além de acreditar na lenda, Dee a ampliava, colocando o Rei Arthur como líder de um Império Britânico colossal ao qual a Rainha Elisabete tinha direito.
Em algum momento entre 1578 e 1580, Dee entregou à rainha o documento Title Royall to… foreyn Regions [Direito real a… regiões estrangeiras] nas quais, por ser descendente de Arthur, Elisabete tinha direito à “Atlântida” (era como Dee chamada a América), Islândia, Groenlândia, bem como às ilhas fantasmas de Friseland e Estotiland (que eram mencionadas na Viagem dos Irmãos Zeno, uma obra medieval publicada na Renascença).
Da década de 1550 até a década de 1580, Dee foi a principal liderança das navegações inglesas. Isso se deve tanto a um fator ideológico quanto a um fator prático. O fator prático é que a Inglaterra, antes mesmo da Reforma protestante, passava por um espírito reformista erasmiano que visava a combater a influência da Idade Média na universidade e substituí-la por beletrismo. Com a adesão da Inglaterra ao protestantismo, essa tendência se aprofundou, e no breve reinado (1547 – 1553) de Eduardo VI (o herdeiro homem tão desejado por Henrique VIII), os puritanos invadiram as universidades e destruíram os escritos identificados com o “papismo”. Para piorar, a matemática era associada com o ocultismo. Assim, grosso modo, era como se as universidades inglesas só tratassem de belas letras e apenas o excêntrico mago John Dee fosse capacitado para tratar de coisas práticas como a navegação.
Quanto à razão ideológica, Dee acreditava que a Rainha Elisabete deveria liderar um Império Britânico, e que tal império deveria se dar pela supremacia naval acompanhada por uma grande atividade mercantil. Essa é a descrição do Império Britânico tal como ele entrou para a história, mas ela reflete sobretudo o século XIX. Na época de Dee, não exisitam nem colônias inglesas na América, mas ele achava que um tal Lorde Madoc, Príncipe de Gales do Norte, havia construído uma “colônia” perto da Flórida e por isso a Rainha Elisabete tinha direito à “Atlântida”.
Na época de Dee, a os ingleses inventaram sistema de chartered companies, tão aproveitado pelos holandeses, no qual o Estado dava a uma companhia comercial o monopólio das relações comerciais com uma região. (Já escrevi em maior detalhe sobre isto aqui.) Assim, os projetos navais mais imediatos de Dee incluíam as expedições da primeira chartered company inglesa pelo Ártico (buscava-se uma rota da Inglaterra para o Oriente através do Ártico), expedições para o Canadá (se Humphrey Gilbert não tivesse naufragado, Dee teria direito a terras no Canadá), ou a circunavegação de Drake (a segunda circunavegação da História, que se seguiu à de Fernão de Magalhães).
Navegações de tão grande escopos eram, por fim, necessárias porque a Rainha Elisabete estava predestinada a liderar um império mundial, sem comparação com todos os precedentes: o “Incomparable Brytish Impire”, no inglês da época.
Assim, pois, temos que o Império Britânico é a invenção de um feiticeiro celta que se comunicava com “anjos” um tanto esquisitos (pois recomendavam troca de casais…) e acreditava que a Rainha Elisabete restauraria e superaria o império mítico do Rei Artur.

